A vida no tubo
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
Curitiba talvez seja o único lugar do mundo em que ponto de ônibus virou símbolo da cidade. As estações tubo, peças fundamentais do suposto melhor transporte público do Brasil, viraram ícones curitibanos, mas pouca gente atenta para as pessoas que enxergam os poucos metros quadrados daquelas estruturas tubulares como local de trabalho.
Os cobradores que atuam nas várias estações tubo passam seis horas por dia em frente à catraca. ''Não vou reclamar dessa profissão. Tudo o que eu queria consegui trabalhando como cobrador: comprei meus móveis, casei, sustento minha família'', diz Cleverson Gomes de Cristo, de 26 anos, cobrador há um ano e três meses. ''O bom de ser cobrador é que você conhece gente pra caramba, faz muitas amizades.''
Dependendo do movimento na estação, a responsabilidade de administrar a catraca pode ser estressante ou tediosa. Fábio Júnior da Silva, de 27 anos, trabalha na estação Parque Iguaçu, no Boqueirão. ''Acho que é a estação mais tranquila de Curitiba inteira'', afirma o cobrador.
''Num turno de seis horas, o movimento dá umas 20 passagens em dinheiro e umas 30 em cartão'', explica Silva, que trabalha à tarde. Nos vários períodos do turno em que a estação fica às moscas, ele faz o que pode para driblar a monotonia: lê muitos livros (Sidney Sheldon e Agatha Christie estão entre os autores favoritos), dá um pulo no tubo no sentido oposto da canaleta para conversar com o outro cobrador. ''Só que música não pode'', diz Silva.
Mais movimentada da Capital
Célia Maria dos Santos, de 41 anos, tem uma rotina de trabalho bem diferente: a estação em que ela trabalha, a Westphalen, no Centro, costuma ser descrita como a mais movimentada de Curitiba. No final da tarde, a fila que parte do tubo chega a dobrar a esquina. ''Acho que nas seis horas em que trabalho aqui passam umas 900 pessoas pela catraca'', calcula Célia, que vê um lado bom em tanta movimentação: ''A hora passa mais rápido''.
As oscilações no movimento e as diferenças entre as várias comunidades de Curitiba fazem com que as rotinas de trabalho dos cobradores de estações tubo nunca sejam iguais, mas algumas críticas são recorrentes. Uma queixa quase unânime é a falta de segurança. Cleverson Cristo já foi assaltado duas vezes na estação Araçá, no bairro Alto Boqueirão, e atualmente trabalha na estação Érico Veríssimo, no mesmo bairro.
A ausência de um banheiro no tubo é outro motivo de queixa. ''Aqui eu ainda tenho uma vantagem, pois tem um posto de gasolina bem em frente à estação, mas em outros pontos não há banheiro por perto'', relata Fábio Júnior da Silva.
Os cobradores também apontam que a estrutura dos tubos deixa os trabalhadores e os passageiros expostos aos inconvenientes do clima imprevisível de Curitiba. ''Quando faz calor, a estação fica quente demais. Quando faz frio, fica fria demais. Com a chuva, o vento vem 'de lado' e molha tudo dentro do tubo'', conta Cleverson Cristo.
Os usuários sem educação são outro problema. ''Muita gente que vem com cartão de isento, é só dar algum problema na hora de passar na catraca que a pessoa já grita com você'', queixa-se Cristo.
Histórias engraçadas
Apesar dos momentos ruins, a vida no tubo sempre rende histórias engraçadas. ''Uma vez, dei um troco em moeda para um sujeito e ele não quis aceitar. Eu falei que não tinha outro jeito. Durante três dias, ele veio à estação tubo e ficou me atormentando. Eu avisei a Guarda Municipal e no quarto dia o sujeito veio, arrumou confusão e foi parar na delegacia'', lembra Fábio Júnior da Silva, entre risos.
Cristo diverte os colegas de empresa com uma história que muitos acham difícil de acreditar. ''Teve uma vez em que uma mulher de idade, que provavelmente não era daqui, entrou no tubo e ficou se segurando no corrimão da estação. Passou um ônibus e ela não entrou. Depois de um tempo, ela olhou para mim e perguntou: 'Moço, quando o tubo vai sair do lugar?''', relata.


