A vida no Oriente do Brasil
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de dezembro de 2010
Wilhan Santin 
Enviados à Ilha da Trindade
No Oceano Atlântico, a 1.167 quilômetros em linha reta de Vitória (ES) e a 2.275 quilômetros de Londrina, há uma porção de terra de menos de 10 quilômetros quadrados, mas de uma beleza quase inexplicável e de importância econômica ainda a ser calculada. É ali, na Ilha da Trindade, que tem menos de 50 moradores, o ponto mais oriental do Brasil, onde o sol nasce primeiro no país. Um paraíso isolado e desconhecido dos brasileiros.
Pisar na ilha é privilégio para poucos. Cabe à Marinha do Brasil guarnecer o território, missão que os militares cumprem, de forma permanente, desde 1957, quando começou a funcionar o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit). Além desses homens, conseguem permissão para residir no local pesquisadores que trabalham em projetos científicos relacionados à ilha ou ao oceano. E só. Até para fazer uma visita de poucas horas é preciso pedir autorização para a Marinha. As chances de receber um não como resposta são altas.
A Trindade só é possível chegar navegando. Não há pista de pouso, o que inviabiliza a aterrissagem de aviões. A distância para as áreas continentais - a ilha está quase no meio do caminho entre Brasil e África - também não permite a chegada de um helicóptero. Faltaria combustível.
A FOLHA chegou até lá na última semana viajando a bordo do Navio de Desembarque de Carros de Combate Almirante Saboia, da Marinha, participando de uma missão de reabastecimento ao Poit. A cada dois meses, um navio militar leva até lá mantimentos, equipamentos, medicamentos e voluntários prontos a permanecer 60 ou 120 dias em estado de quase absoluto isolamento. A recompensa é dada em forma de dois soldos extras e de um visual ímpar. Entre os militares há fila de espera para trabalhar por lá.
De origem vulcânica, Trindade reserva uma surpresa a cada hora de caminhada. Há piscinas naturais de água salgada, praias, paisagens que lembram um cenário marciano, deserto e de solo vermelho; morros de areia e de pedra, uma floresta de samambaias gigantes que chegam a seis metros de altura e só existem ali. Há também caranguejos, milhares, que habitam até os picos mais altos, como o Desejado, de mais de 600 metros de altura, e comem - ou tentam - o que encontram pela frente, inclusive roupas ou objetos que fiquem ao alcance deles. Mais tranquilas são as tartarugas marinhas que ali desovam nas noites desta época do ano e as aves marinhas, como as grazinas, que em nada incomodam a quem habita a ilha.
Completa o pacote os rochedos de Martin Vaz, a 50 km a leste, que também pertencem ao Brasil e podem ser vistos com tempo bom. Tudo isso cercado por um mar de um azul capaz de inspirar poetas.


