A vida de quem trabalha enquanto a maioria dorme
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Luiza Xavier<br>Equipe da Folha 
Até algum tempo atrás, quando alguém contava que trabalhava durante a noite, normalmente, era porque atuava nos serviços essenciais, como profissional das áreas de saúde - médicos, enfermeiros e auxiliares -, e de segurança - policial, bombeiro, defesa civil -, ou ainda como vigilante, porteiro, motorista de ônibus, garçom, algumas das atividades noturnas tradicionais.
Hoje, somado a essas funções, há um grande número de atividades que, embaladas pelo avanço tecnológico, abrem espaço para os chamados turnos da noite. Afinal, o conceito de que não podemos parar está cada vez mais forte, especialmente nos grandes centros urbanos. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que o tempo é cada vez mais escasso.
Se é preciso produzir mais em menos tempo, a aparente solução é esticar o dia. E surgem então os serviços 24 horas: postos de combustíveis, lojas de conveniência, supermercados e até academias já funcionam durante a madrugada. Com tanta movimentação noturna na cidade, aumenta também a necessidade de mais segurança. Para dar suporte aos antigos vigilantes foram criados os serviços de monitoramento eletrônico que, obviamente, operam durante todos os dias, sem interrupção.
A empresa em que trabalha Rafael Amitrano, de 23 anos, é uma das que surgiram na capital na última década para oferecer a estabelecimentos comerciais e residências este tipo de vigilância. Ele, que trabalhava com o pai, desde os 15 anos, instalando alarmes, foi contratado em janeiro deste ano como operador de monitoramento, profissão inexistente até bem pouco tempo atrás.
A jornada de Amitrano começa às 18 horas e termina às 6 horas do dia seguinte. Entre um turno e outro, ele tem direito a 36 horas de descanso.Esse horário é interessante porque posso fazer outras coisas. E, como minha mulher, que é enfermeira, também trabalha à noite, não temos aquele problema do desencontro de horários, diz.
Ter mais tempo para se dedicar à vida pessoal nos horários em que a maioria das pessoas está no trabalho também foi o que motivou Romilda Pereira, de 29 anos, a pedir a troca de horário no trabalho. Desde julho, ela passa as madrugadas no emprego. Meu marido precisava se submeter a uma cirurgia. Achei que, trabalhando à noite, teria mais tempo para cuidar dele. Acabei gostando desse turno e não penso em mudar. Agora, consigo até fazer hidroginástica à tarde, afirma ela, que é operadora de call center, outra atividade recente, reflexo do agitado dia-a-dia contemporâneo. Meu trabalho é atender a clientes corporativos que, normalmente, não têm tempo de resolver problemas durante o horário comercial, observa.
Rafael e Romilda fazem parte de um grupo de trabalhadores que cresce em todo o mundo. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), pessoas que realizam atividades profissionais durante a noite e madrugada já representam cerca de 30% da população economicamente ativa mundial.


