A capacidade de transformação de Londrina, colocada à prova nos anos 1970 com o êxodo rural, fez a cidade trocar o trabalho no café pelo cafezinho no trabalho. Após as grandes geadas, com destaque para a de 1975, que dizimou toda a lavoura, a cidade despertou sua vocação para o setor da prestação de serviços. Na esteira do conceito de cidade próspera, que já nasceu empresarial, milhares de trabalhadores rurais sem emprego também tiveram que se reinventar. Sem os mesmos holofotes, eles fundaram uma cidade muito além dos cartões-postais.
É nesse cenário de lutas nas periferias da cidade que o sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marco Antônio Rossi, encontra argumentos para defender que o desenvolvimento local é fruto do trabalho árduo dos cidadãos comuns dos bairros carentes. "Londrina é a história das grandes companhias de transporte, das grandes empresas de indústria e comércio? Sim, mas também de todo mundo que trabalhou de sol a sol para fazer disso algo maior", ressalta.
Para Rossi, as conquistas históricas obtidas nas comunidades londrinenses estão muito atreladas às ações dos movimentos sociais. De pessoas engajadas que se dedicaram em cobrar serviços básicos para o bairro, reduzir taxas de mortalidade e melhorar índices educacionais. No entanto, no momento atual, em que a sociedade segue um caminho mais individualista, fica no ar a impressão do esvaziamento desses movimentos.
Rossi é categórico em refutar esse pensamento. "O que vivemos é apenas mais uma transformação", garante. "Aqueles movimentos típicos dos anos 1960 e 1970, baseados em lideranças, estão em refluxo, principalmente por descrença nas figuras centrais que transformam a visibilidade em trampolim para a vida política, no sentido partidário da palavra", completa. Segundo o sociólogo, o que se desenha hoje é uma horizontalidade na constituição dos movimentos sociais. "É o processo de cada um fazer sua parte, embora tenha a pessoa que organize tudo. Isso inda é muito frágil, é algo que está se desenvolvendo, mas em Londrina tem apresentado bons sinais", destaca.
Rossi explica que os movimentos existentes em Londrina entenderam a importância de lutar pela manutenção dos direitos conquistados. "Temos movimentos religiosos que lutam contra a intolerância, como o das religiões afro-brasileiras; alguns jovens nas universidades e também nas escolas que trabalham a questão da acessibilidade às cotas, tanto raciais e étnicas como sociais. O movimento feminista na cidade também é muito interessante", cita.
Para os próximos anos, o sociólogo espera que as pessoas percebam a importância do protagonismo social. "O personagem da periferia não pode ser alguém que seja ignorado ou liderado, mas alguém que seja autônomo, capaz de dizer o que pensa, o que vive. Talvez seja um processo para os próximos 81 anos e não vejamos todas as mudanças, mas é bom participar de uma pequena parte disso tudo".

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