Londrina ainda possui muitos estabelecimentos tradicionais, fundados nas primeiras décadas da cidade. Nos dois decênios que precedem o centenário, alguns serão administrados por descendentes dos que se esforçaram para estabelecer esses locais.

O cabeleireiro Mário Takinami, de 83 anos, fundou o salão que leva seu nome na década de 1950. Ele havia chegado a Londrina pouco antes, vindo de Minas Gerais, e duas irmãs suas, Neusa e Marta, já trabalhavam na área. Neusa se mudou para Curitiba pouco depois e os irmãos que ficaram em Londrina passaram a administrar o salão - que a princípio ficava na Rua Sergipe e anos depois foi transferido para um edifício comercial na João Cândido.

Mário se lembra do preconceito que havia nos primeiros anos. Poucos cabeleireiros em Londrina se dedicavam, como ele, à clientela feminina: só mulher cortava cabelo de mulher. "Na época, não podia misturar homem com mulher no mesmo salão. Marido não deixava a mulher vir ao salão se tivesse um homem sendo atendido", explica. O Mário Cabeleireiros foi crescendo, passou a atender também a clientela masculina e continua sendo um dos salões de beleza e cabeleireiros mais conhecidos de Londrina.

Hoje, três gerações da família Takinami administram o salão: trabalham no local, além de Mário, as irmãs Nair, Helena e Marta, dois filhos de Mário, Maurício e Maristela, a esposa de Maurício, Angélica, e o filho do casal, Pedro Henrique.

Maurício, de 56, e Maristela, de 53, a segunda geração, estudaram Direito, mas seguiram a vocação do pai. "Meu pai nunca forçou nada. Ele queria que a gente estudasse. Acabamos seguindo a profissão dele", diz Maurício.

Maristela chegou a trabalhar como advogada. "Mas percebi que não era minha vocação. Eu gostava de trabalhos manuais. O meu marido me 'acordou'. Ele disse: 'por que você não segue a profissão do seu pai?'. Eu não queria porque o meu pai trabalhava muito. Mesmo no tempo livre, ele tinha outras atividades na área: cursos, concursos. Mas no fim você pega tanto amor pelo que faz que se torna uma coisa mágica. A realização profissional é o sorriso do cliente, ele ficar satisfeito e voltar, essa fidelidade", relata.

Pedro Henrique, de 25, deixou a faculdade de Educação Física para se dedicar à profissão do avô e do pai. Ele faz planos para o salão. "Vamos buscar a consolidação do nome, novos clientes, mais espaço, porque o mercado está se atualizando e crescendo o tempo todo", afirma.


Tradição árabe


O Kiberama, restaurante árabe mais conhecido de Londrina, hoje é administrado por Salime Dakkache, de 79, e pelos filhos Pedro e Carlos. Pedro, de 49, conta que foi natural que ele e o irmão assumissem a gestão do empreendimento, inaugurado em 1965 pelo pai, o imigrante libanês Michel Dakkache (falecido em 2001), a mãe e a avó.

"Desde os 13 anos eu ajudava no restaurante, e o meu irmão, um pouco antes, por ser mais velho. A gente ajudava (comprando alimentos) na feira, no atendimento ao público. No começo, era uma ajuda pequena, mas já íamos aprendendo", explica. "Não era tão claro (que os filhos iam assumir a administração do Kiberama). Começamos para ajudar nossos pais. Depois, a coisa foi acontecendo, fomos gostando, vendo a possibilidade de continuar. Eu e meu irmão sempre nos demos bem, cada um sabendo seu papel."

Dois filhos de Carlos, Talita e Carlos Filho, hoje colaboram na gestão do restaurante, e tudo indica que a família Dakkache vai para a terceira geração à frente do Kiberama. "Comecei no caixa. Depois, fiz faculdade de gastronomia e hoje ajudo na cozinha. O meu irmão trabalha no caixa e no telefone, no atendimento ao público", diz Talita, de 26. "Daqui a pouco, podemos assumir o restaurante, quando meu pai e meu tio decidirem se aposentar."

Pedro, que tem um filho de 11 anos que ainda não ajuda no restaurante, espera que a próxima geração da família toque o Kiberama adiante. "Para o futuro, o que espero é ver essa transição para os nossos filhos, que o empreendimento que a gente montou possa perdurar, se atualizar no mercado, que os que vierem sempre o levem adiante", afirma.

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