A união que faz a força e muito mais
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sábado, 10 de dezembro de 2005
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
Na sala de espera do consultório, fotos mostram construções antigas, ruas sem asfalto, lama, poeira, rostos com o olhar em algum ponto do futuro. São imagens em preto e branco, que só sugerem que o barro é vermelho e deixam apenas vislumbrar o que viria a ser aquela (ainda pequena) cidade.
É Londrina, de um tempo que já passou, mas que continua na memória e no coração de quem chegou moço ''para ganhar a vida''. As imagens não enganam - estamos no consultório de um dos muitos médicos pioneiros de Londrina, que viram a paisagem mudar, a cidade crescer, e a tecnologia revolucionar a medicina. E nesse meio tempo fizeram da cidade o grande centro de saúde que é hoje.
Os anos não fizeram o cirurgião Jonas de Faria Castro Filho, com ''quase 87'' anos, proprietário do consultório em questão, o ginecologista e obstetra João Henrique Steffen Júnior, de 82, e o cirurgião João Dias Ayres, de 92, esquecerem dos problemas de saúde que a população padecia na época. Nem do quanto a cidade foi importante em suas vidas. E vice-versa.
Sem água encanada, energia elétrica, ou qualquer infra-estrutura de saneamento básico, as parasitoses e doenças tropicais infecciosas, como a malária, figuravam entre as principais doenças. E se hoje, elas ainda desafiam a saúde pública, é fácil imaginar como era 40, 60, 70 anos atrás. ''As chuvas torrenciais enchiam os rios (Tibagi e Paranapanema) e a água invadia a região. Com isso as doenças tropicais se tornavam problemas sociais'', lembra Ayres.
Formado em 1937 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ayres escolheu Sertanópolis ''para começar a vida'', antes de vir a Londrina, onde seria chefe do 17º Distrito Sanitário, de 1954 a 1980. ''Vim preparado para enfrentar uma região nova. Estava começando minha vida, querendo colocar em prática o que tinha aprendido na escola. E a Mariana (esposa) topou essa comigo'', conta.
No consultório, havia uma escrivaninha e um armário para os remédios, mas para atender os pacientes era a estrada que tinha que enfrentar. De preferência ''com um machado e um bom motorista que entendesse de mecânica'', lembra Ayres. Por conta das derrubadas da mata para o plantio de café, traumatismos e ferimentos também eram comuns entre os colonos. Assim como a leischmaniose, ou a ''úlcera de Bauru'', causada pela picada do mosquito flebótomo.
Já Steffen Júnior chegou a Londrina em 1950 prometendo voltar a São Paulo em dois anos. ''Durante 10 anos ainda pensava que iria voltar, até que um dia me convenci que não. Fui me envolvendo e fiquei o resto da vida'', constata. Veio a convite do pastor Luís Boaventura para auxiliá-lo na construção de um hospital. Isto porque a Santa Casa, inaugurada em 1944, nesta época já ''vivia lotada'', e Londrina precisava de outro hospital.
Foi construído então, com recursos do Estado, ''mas principalmente através de contribuições espontâneas'', o Hospital Evangélico, no prédio onde hoje funciona a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), na Rua Pernambuco. ''Só alguns anos depois, lá pelos anos 65, 66, que se conseguiu obter um recurso substancial da Alemanha, que permitiu a construção do prédio na Avenida Bandeirantes'', ressalta.
Hoje ginecologista e obstetra, Steffen Júnior lembra que quando iniciou na profissão os médicos eram, em sua maioria, generalistas e atendiam ''de tudo'' - desde a gestante, até o acidentado. Antes que a tecnologia fizesse as especialidades se multiplicarem, ''todo tipo de diagnóstico era clínico'', até porque os recursos laboratoriais também eram menores, e ''a formação médica era mais ampla''. ''Naquela época a gente tinha condição de terminar o curso e já atender'', aponta.
Steffen Júnior lembra que as parturientes da época não iam ao hospital para ter filhos, mas atendidas por parteiras, e o número de natimortos era grande: ''eram 'curiosas' que atendiam (as gestantes na hora do parto), e se a parturiente tivesse que ir ao hospital isso representava um fracasso para elas''.
Ele viu a obstetrícia dar ''um salto gigantesco'' nas últimas décadas. Com alguns paradoxos: ''Há alguns anos já não se pensa mais em fazer parto em casa. A analgesia melhorou muito, e também a segurança da cirurgia, mas por conta disso, são realizadas muitas cesáreas'', opina.
O médico Jonas de Faria Castro Filho ajudou a fomentar a idéia e criar a Associação Médica de Londrina (AML): ''Mas foi Newton Câmara um dos grandes incentivadores''. Formado em 1940, no Rio de Janeiro, veio a convite do pai, o Dr. Jonas, da ''Casa de Saúde Dr. Jonas'', que ficava na Avenida Rio de Janeiro e foi fechada em 1944. ''Papai fez um colega de turma escrever uma carta para me convencer a vir para cá. Em 6 de março de 1941 desci do trem na estação'', conta.
Na época eram comuns os casos de tuberculose, lepra, tifo, difteria e raiva canina, os dois primeiros tratados com o isolamento do paciente. Mas, ele lembra de um caso ''ainda do tempo do hospital do 'papai'' que o marcou muito: ''era uma japonesinha com uma 'canivetada' no baço, que levou 17 horas para vir de próximo de Uraí a Londrina. Fiz a cirurgia, mas ela morreu porque estava praticamente sem sangue''.
Castro Filho calcula ''umas 25 mil'' cirurgias no currículo e teve o privilégio de envelhecer com seus pacientes. No fichário do cirurgião, que ainda exerce o ofício, ele exibe com orgulho cadastros de pacientes que atende desde a década de 50. ''Tenho tanta ligação com Londrina que me considero parte daqui''.
Na Zona Oeste, nada parece impossível ou difícil para os moradores, que este ano iniciaram também parcerias com a Confepar e a UEL.
Nos quatro cantos da cidade, londrinenses arregaçam as mangas e lutam para conseguir melhorias para a comunidade.
Na Zona Norte, a indignação de um cidadão ganhou apoio dos vizinhos e criou um movimento popular para garantir mais saúde para a cidade.
Na Zona Sul, a luta dos moradores este ano foi por mais segurança e a volta do 6º Distrito Policial.
Na Zona Leste, um sonho de 26 anos que finalmente vai se realizar: a revitalização do fundo de vale do córrego Barreiro.


