Especial para a Folha
‘‘Dirigimo-nos ao Porto de Kobe e de longe olhamos o navio que iria nos levar para o outro lado do mundo. Eu tinha 1 ano de idade, e era levada pelo cais no colo de minha mãe, junto com meu pai e duas irmãs. Em algum lugar do meu coração eu compreendia o que estava se passando, apesar de ser uma criança de colo. O Kasato Maru, enorme e preto, estava ancorado à nossa espera. Meu pai havia escolhido ir para o Brasil, um mundo novo, cheio de promessas de trabalho, com terras férteis e abundantes colheitas. Lá pensávamos em plantar nossos sonhos. Era a terra da promessa...’’
Apertando bem os olhos por tras dos óculos, mãos cruzadas, com ar calmo, Dona Tomi Nakagawa, 91 anos, emociona-se ao recordar o dia do seu embarque no Japão. Ela é a última sobrevivente do Kassato Maru, e mora em Londrina. Dona Tomi está muito lúcida, e conta a epopéia. A Primeira Grande Guerra batia à porta do início do século, na Europa. No Japão, a indústria, que era incipiente, não oferecia oportunidades de trabalho; a agricultura era praticamente de subsistência. O imperador Hirohito certamente enchou os olhos de lágrimas quando percebeu que a saída era pelo mar. E o destino, Brasil, lá longe.
Era verão no Japão. O chefe da família, Mitsuji Nishimura, sua esposa Kiyo e as três filhas caminhavam pelo cais de Kobe. O cheiro característico do mar toma conta do ar. Mitsuji caminha firme. Ele era trabalhador, não temia qualquer tipo de serviço. Ouvira falar da primeira viagem de japoneses para o Brasil, organizada pelos governos dos dois países e logo se alistara no Serviço de Imigração. Encheu os pulmões do ar fresco da manhã e se aproximou, apertando a mão de uma das filhas que conduzia, olhou sua mulher no fundo dos olhos, ergueu a cabeça. O Brasil era logo ali, adiante. Quinze mil quilômetros.
‘‘Eu nem sei falar direito português’’, vai adiantando com um sorriso bonito a simpática dona Tomi, quando nos recebe. Ela não se importa muito em ser a história viva da imigração japonesa para o Brasil. Nem faz questão. Diz que pouco lembra do desembarque e dos primeiros dias na terra estranha, de lingua estranha, de costumes estranhos. Era o dia 18 de junho de 1908. O porto estranho era o de Santos, em São Paulo.
Vestidos com seus trajes ocidentais, os 781 passageiros passaram 52 dias no mar, balançando, enjoando nas 12 mil milhas de viagem. Houve brigas, confraternizações e até mesmo uma morte natural. O corpo foi sepultado no mar, o seu lugar na história. A travessia para o outro mundo era feita pela coragem, pelo meio das tempestades. E lá ia o grande e preto Kasato Maru, fazendo tremular a bandeira branca com o círculo vermelho ao centro, como que avisando a posteridade que os japoneses estavam chegando.
Bandeiras de sedaA travessia selaria implacavelmente a vida da maioria deles, uma vez que muitos nunca mais voltaram à terra natal. Nunca mais a primavera das cerejeiras, nunca mais o canto dos regatos nos suaves jardins. Nunca mais o silêncio dos tamancos cortando a suavidade do tatame, nas casas da mãe, da avó. Nunca mais. Outros tiveram mais sorte: voltaram a ver e a sentir a Terra do Sol Nascente, de onde tinham as histórias milenares.
Entrando lenta, suave e imponentemente na barra de Santos, o gigante negro foi como que se encaixando por entre as gaivotas até encostar no porto, lançar ferros e amarrar-se. Na amurada, as famílias se juntaram. ‘‘Meu pai e minha mãe contavam que cada um agitava uma bandeira do Japão’’, conta dona Tomi. ‘‘As bandeiras eram pequenas, de seda’’. Mas eram demonstração do autêntico sinal de respeito e consideração oriental. Estas bandeiras ainda tremulam na memória de Dona Tomi.
Mitsuji, Kiyio e as meninas estavam no Brasil, finalmente. Exaustos, porém confiantes. Ficariam decepcionados, depois. Mas seriam capazes de contornar obstáculos, superar-se e, enfim, fazer a América. ‘‘Chegamos em Santos e fomos de trem para uma fazenda em Mogiana. A fazenda era uma das seis destinadas a recolher os primeiros imigrantes japoneses. Lá ficamos só um ano. Meu pai ficou devendo, apesar de trabalhar de escuro a escuro’’, lembra dona Tomi.
O pai foi trabalhando, trabalhando, e um dia conseguiu juntar algumas economias, anos mais tarde. Daí, mudou-se para São Paulo e decidiu trabalhar como carpinteiro. Tomi diz que ‘‘as dificuldades eram muitas’’.
Mas não há apenas lembranças ruins na família. O filho de Tomi, Wataro Nakagawa, de 66 anos, lembra de histórias contadas pelos pais sobre os primeiros meses. O primeiro obstáculo, naturalmente, foi o idioma. ‘‘Eles não sabiam o nome das comidas e quando iam comprar alimentos, apontavam o que queriam. Certo dia, um japonês ficou irritado com o vendeiro, que não entendia nada do que ele falava, e xingou-o de ‘‘bacatar钒, ou seja, bobo, em japonês. Só que, para sua surpresa, no mesmo momento o comerciante havia entendido que ele queria bacalhau. Satisfeito, o imigrante levou o bacalhau e ensinou a todos os conterrâneos que, quando fossem pedir bacalhau no armazém, era só xingar o vendeiro de bobo...’’
Dona Tomi lembra que as mulheres da comunidade japonesa se juntavam para chorar de saudade do Japão. ‘‘Minha mãe ia junto. O Brasil era muito triste. Era só trabalhar, trabalhar, trabalhar. Lá no Japão trabalhava-se menos e a comida era boa. Aqui não tinha nem arroz na fazenda, e era preciso ir comprar na cidade’’, recorda. Ora, para japonês era difícil entender como é que na fazenda não havia arroz - eles vieram basicamente para trabalhar com as lavouras de café no interior de São Paulo - se no Japão até o Imperador mantinha o costume de cultivar a sua própria cota de arroz.
De sol a solVinte anos depois da chegada do navio, os pais de Tomi foram vencidos e derrubados pelo desânimo. Nem a língua eles haviam conseguido aprender. Olhando o Sol Nascente, uma manhã se levantaram e decidiram voltar para o Japão. Deixaram as três filhas casas e um dos três filhos nascidos no Brasil. Tomi tinha pouco mais de um ano de casada quando os pais partiram de volta. Conta que foi difícil enfrentar a dor da separação. Mas, fortaleceu-se para a nova vida. Melhor era não ‘‘abrir o bico’’. Não falar nada. Só chorar por dentro.
Como de costume, também para casar ela não emitiu opinião. O pai foi quem escolheu o marido de Tomi. ‘‘Naquele tempo, japonês não namorava’’. Dito e feito. Ela casou-se com o escolhido Massagi Nakagawa aos 20 anos e teve a primeira filha quando tinha 21. A vida não mudou muito: continuou sendo de uma fazenda a outra. Na labuta, lenços amarrados sobre os chapéus para quebrar o efeito causticante do sol. ‘‘Acordava todos os dias ainda no escuro, e ia para a roça assim que clareava um pouco. Trabalhava todos os dias, menos domingo. Ah! domingo era dia de visitas. E a gente ia visitar amigos japoneses, italianos, espanhóis’’.
A imigrante conta que gostava de participar dos undokai, as movimentadas gincanas organizadas frequentemente pela comunidade dos japoneses nas fazendas. Jogava gateball. ‘‘Corria muito...’’, diverte-se, lembrando. Apesar de tudo, de muito trabalho, ela sempre foi ‘‘muito alegre’’, adorava cantar em casa e na roça. Confessa que não tinha vontade de voltar ao Japão. O marido, sim. Massagi queria regressar, já que também era imigrante. ‘‘Estive no Japão duas vezes. A primeira, a passeio, e depois, para acompanhar Massagi em tratamento médico’’. Mas o marido não conseguiu vencer o câncer e acabou morrendo em 1980.
Dona Tomi enche os olhos de lágrimas quando ouve os filhos contarem esta parte de sua vida. ‘‘Quando nosso pai estava doente, todos nós, os filhos, fomos visitá-lo. Foi muita emoção’’, lembra a filha Eiko Nakawaga Itano, com quem Dona Tomi está morando em Londrina. ‘‘Eu fui ao hospital e pedi que minha mãe descansasse um pouco. Mas quando meu pai deu pela falta dela, ficou muito agitado e ela teve que voltar imediatamente ao hospital’’.
Atualmente a vida da pioneira japonesa é limitada por pequenos problemas de saúde. Ela convive com sequelas de um derrame que teve há dois anos. ‘‘Hoje não faço nada. Todo dia levanto, ando um pouco e durmo’’. O sotaque é de quem ainda fala melhor em japonês do que em português. Dona Tomi teve 8 filhos, cinco dos quais vivos, 30 netos e 28 bisnetos.
Agora, em Curitiba, Dona Tomi viverá uma de suas maiores glórias: uma conversa com o imperador Akihito.

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