Por trás do mato que se alastra pelo câmpus no Perobal por causa da greve de mais de quatro meses, muita gente trabalha para manter serviços fundamentais da Universidade
O mato alto já esconde sílabas do imponente letreiro na entrada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em frente à PR 445, a Rodovia Celso Garcia Cid. A impressão é de que o verde, aos poucos, engole os edifícios ociosos por causa da greve. O contraste com os jardins bem cuidados, que fizeram a fama do câmpus, é inevitável. E provoca uma avaliação precipitada, a de que a UEL sofre um abandono completo. Neste caso, como ficariam as pesquisas, os animais, os equipamentos?
Um passeio detalhado pelo câmpus, porém, contraria o alarmismo. A realidade é diferente do que, à distância, se imagina. A movimentação salarial não brecou atividades consideradas fundamentais. A situação não é 100%, mas também não chega a uma tragédia.
Os canteiros desarranjados escondem a movimentação de pessoas e carros. A UEL não está deserta. É só entrar no Centro de Ciências Biológicas, por exemplo, para encontrar pesquisadores. O motivo é simples: pesquisas exigem equipamentos, prazos e investimentos que seguem um calendário próprio. Influir neste processo causaria perdas irrecuperáveis.
É o que mostra André Luís Laforga Vanzela, doutor em Botânica. O laboratório em que ele trabalha é o de Citogenética e Marcadores Moleculares em Plantas. Para se ter uma idéia, se a luz cair e ninguém estiver por perto para ligá-la, só em produtos reagentes o prejuízo seria de R$ 100 mil, espalhados em três freezers.
No laboratório trabalham, em plena greve, alunos de graduação e mestrandos. A capacidade operacional diminuiu, mas não parou. ‘‘Não está normal, a secretaria não está funcionando, o correio está precário e a produção caiu. Mas não podemos ficar parados. A Comissão de Ética do comando de greve liberou. Essas práticas de pesquisa dependem de verba e de prazos. Se um mestrando entrar em greve, ele pode atrasar sua tese e receber uma nota menor, o que traz um ponto negativo para o curso. Além disso, os reagentes que utilizamos têm data de validade, é um material que não pode ser perdido’’, explica o pesquisador.
Ao lado do CCB, no setor de mudas e plantas, Claudia Universal Batista trabalha firme para não perder os prazos e concluir o mestrado em Botânica. Mais para baixo, cerca de 125 mil mudas de árvores nativas estão prontas para serem entregues, outra atividade que a greve não impediu.
Com capacidade para produção de 1 milhão de mudas por ano, o Viveiro de Mudas não negocia plantas. Elas são destinadas a projetos de restauração ambiental. ‘‘Aqui nós paramos parcialmente, o ritmo diminuiu, mas conseguimos autorização do comando de greve para as atividades essenciais. Não pegamos projetos novos, mas estamos desenvolvendo os que já existiam’’, explica José Marcelo Torezan, professor de Ecologia.
Rumo à Morfologia, vê-se alguns guardas, sinal de que a vigilância não foi cortada. Vidros e lâmpadas intactos indicam ausência de vandalismo ou saques. Os murais, utilizados para divulgação de notas, cursos e festas, estão congelados no tempo. Um cartaz anuncia uma cervejada, numa boate da cidade, para o dia 14 de setembro. Ali, um banheiro masculino acumula muito papel higiênico espalhado pelo chão.
Explica-se. A Prefeitura do Câmpus está mantendo serviços essenciais, como a logística, fornecimento de energia, água e manutenção eletrônica, entre outros. Mas os serviços de jardinagem e limpeza não vêm sendo feitos, com exceção para fins de segurança. Em alguns locais, o mato foi cortado para melhorar a visibilidade dos vigias.
‘‘A finalidade da prefeitura é a manutenção do câmpus Perobal. Dos 565 funcionários que temos, 208 estão trabalhando. A divisão de segurança está funcionando em 100%. A manutenção corretiva – que deixa os locais em condição de uso – está sendo feita, junto com serviços de carpintaria e hidráulica, pois tivemos alguns problemas como o entupimento de calhas’’, explica Francisco Morato Leite, prefeito do câmpus.
O fato de tanta gente estar trabalhando em plena greve é justificado. ‘‘A gente deve obrigatoriamente manter alguns serviços. Quando a greve começou esse pessoal continuou trabalhando. Mesmo assim, quando a greve acabar, teremos muito trabalho estancado. Há uma grande quantidade de solicitação de serviços, então teremos que planejar para executar os mais imediatos’’, ressalta.
No Calçadão, folhas se acumulam próximo ao meio-fio, mas há indícios de que o local foi varrido. O passeio segue sem surpresas. Alguns prédios evidenciam a necessidade de manutenção, há sujeira e entulho em alguns centros, mas nada que provoque estupefação.
Uma placa se destaca no Departamento de Física: Laboratório de Física Nuclear, com um símbolo de radioatividade. A campainha é respondida rapidamente pelo físico Paulo Sérgio Parreira, que se apresenta como responsável pelo local.
Ele conta que alguns serviços devem continuar para não causarem prejuízos ao patrimônio da Universidade. É o caso de um aparelho que necessita nitrogênio líquido, uma manutenção perigosa e importante para o laboratório. ‘‘Nisso não há como interferir, é uma preocupação com o patrimônio que a gente tem’’, comenta. Dentro da sala, alunos prosseguem trabalhos de pesquisa.
Outro banheiro masculino apresenta uma surpresa incômoda, desta vez no Centro de Letras e Ciências Humanas – o CCH. Morta há dias, uma ratazana – ou algo parecido – jaz exalando um odor persistente, exibindo o crânio entre a pele seca.
Abandono mesmo ocorre na piscina olímpica, já abordada em matéria da Folha no dia 16. Lá foram encontrada larvas do Aedes albopicus, uma variante do Aedes aegypti. A água esverdeada abriga muitos girinos e entulhos como uma cadeira, que repousa no fundo coberto de lodo. As arquibancadas estão praticamente destruídas. Ao lado da piscina, o campo oficial de futebol está em bom estado, mas é conservado por um funcionário do Londrina Esporte Clube, que usa o local para treinos.
Os animais também parecem tranquilos no câmpus. Os cães ladravam no canil e o gado buscava uma sombra no pasto do Hospital Veterinário. Um pesquisador informou que no Departamento de Psicologia Comportamental os ratos – utilizados em aulas e experimentos – eram alimentados com frequência.
Na Fazenda Escola, uma equipe tocava cerca de cem carneiros, separando-os em grupos específicos. Lá, a UEL também não pode parar. ‘‘Nós trabalhamos das 8 às 18 horas, inclusive sábado e domingo. Se a gente parar, quem vai cuidar dos animais?’’, questiona Jorge Jacinto da Silva, funcionário da fazenda. Ao lado, Mauro Inocêncio da Silva – outro funcionário – confirma que a atividade é considerada essencial. Completa o grupo o estudante de veterinária Tiago Rodrigues Casemiro, que só não foi trabalhar – como estagiário – no Natal.
Todos esses exemplos evidenciam a preocupação em evitar um prejuízo maior. O passeio pelos centros do câmpus no Perobal revela que a aparência – boa ou má – não serve de termômetro para a saúde da universidade.

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