Uma vez pé vermelho, sempre pé vermelho. Não importa o quanto a urbanização tenha modificado Londrina, a terra sempre fará parte da história da cidade. Os filhos dos primeiros cafeicultores ainda têm um pé no campo. Muitos abandonaram a cultura que fez do município a capital mundial do café na década de 1950. A geada foi a grande vilã. Mas os antigos cafezais hoje dão lugar aos verdes campos de soja, de milho e hortaliças e às lavouras douradas de trigo.
  Não é preciso ir longe para notar a ligação do londrinense com o campo. Nos quintais, as hortas e a mandioca se estendem aos distritos, onde estão as grandes fazendas de grãos e de gado e também as vilas rurais, onde moram os trabalhadores volantes que colhem as frutas e verduras cultivadas no entorno. Muitos ainda trabalham em Londrina e usam o pedacinho de terra recebido do governo para plantar arroz e feijão ou criar galinhas e porcos para subsistência. Paisagem mais rural impossível.
  Exemplo de dedicação à terra, a mineira Maria Rosalinda Stresser chegou ao Paraná aos 6 anos, quando aprendeu com os pais a tocar o cafezal da família. ‘‘Não tem perfume francês, não tem viagem ao exterior. Nada se compara à sensação de estar dentro
de um armazém abarrotado
com caf钒, diz.
  A paixão pelo café a acompanhou durante a juventude. Já casada, ela comprou uma propriedade em Rolândia para cultivar o cafezal dos sonhos. Hoje, ainda se lembra, com tristeza, das geadas que dizimaram a produção e a obrigaram a trocar de atividade. ‘‘A era da soja foi um período muito sofrido, pois não tínhamos implementos para tocar a lavoura’’, recorda. Para incrementar a renda, Rosalinda investiu ainda na produção de leite, com a criação de 120 cabeças de gado jersey.
  Ela conta que com a doença do marido - que morreu vítima de leucemia - a família trocou o sítio por uma chácara de cinco alqueires em Londrina. A produtora manteve o gado e iniciou o cultivo de hortaliças orgânicas. Destinou ainda meio alqueire a alguns pés de café, ‘‘para consumo próprio’’. A produção, além de atender os familiares, abastece uma cooperativa e uma creche do município. ‘‘Sou pensionista e não vivo do lucro da terra. A terra é um ópio’’, explica a mineira de nascimento, mas ‘‘londrinense de coração’’.
  Morando no Centro da cidade, ela dirige todos os dias até o sítio. Lamenta o fato de os filhos e netos não se interessarem pela terra. ‘‘Mesmo quando meu marido era vivo era eu quem tomava conta de tudo porque ele
tinha o trabalho dele na cidade e não tinha tempo para se dedicar ao campo’’, conta.
Sem arrependimentos, não pretende abandonar a atividade agrícola tão cedo. ‘‘Gosto da terra, de mexer com a terra. Acredito que a realização pessoal vale mais do que tudo nessa vida’’.


A agricultura é responsável por 10% de toda a riqueza produzida pelos londrinenses

Os antigos cafezais deram lugar aos verdes campos de soja, de milho e hortaliças e às lavouras douradas de trigo

A maior parte da produção diferenciada de Londrina é comercializada nos grandes centros urbanos de Curitiba e São Paulo



Casal investe em achocolatados de soja
  O casal Gilson e Rosimary Ribeiro é exemplo de que a agroindustrialização dá certo. No sítio de 0,5 hectare localizado no Distrito Espírito Santo (Zona Sul de Londrina), eles produzem a matéria-prima que dará origem à farinha, ao extrato e à linha de achocolatados de soja que são comercializados em supermercados e lojas de produtos naturais de Londrina, Maringá e Curitiba.
  O primeiro produto desenvolvido pelo casal foi o aperitivo de soja. ‘‘No início éramos os únicos a produzir soja frita em Londrina, mas com a entrada das grandes empresas perdemos a competitividade e resolvemos investir em outros derivados’’, diz.
  Hoje, apenas a farinha e o achocolatado são fabricados na agroindústria e a produção fica por conta do próprio casal. Os investimentos na compra dos equipamentos, declara Ribeiro, foram de R$ 45 mil, conseguidos por meio da Agência de Fomento.
  A linha de achocolatados, ressalta Rosimary, foi formulada pelo marido. ‘‘Por ser um alimento de origem natural, possui um valor nutricional maior que o dos produtos convencionais’’, afirma. A produção atende a demanda e, o preço, calcula Rosimary, supera um pouco os produtos mais conhecidos no mercado.
  ‘‘Como nossa produção ainda é pequena não conseguimos competir com a escala das grandes indústrias’’, lamenta. Mesmo assim, a margem de lucro obtida com a transformação da soja é de até 15%, aponta Ribeiro. (M.G.)


Não há evasão escolar no campo
  A agricultura responde por 10% da produção londrinense. Dos
R$ 4 bilhões produzidos anualmente, R$ 400 milhões são provenientes do campo. A população rural de Londrina está estimada em 20 mil habitantes. Metade reside nas sedes dos distritos e o restante nas propriedades rurais.
  Mais da metade da renda dos distritos é fruto da atividade agropecuária. As culturas anuais respondem por cerca de 50% da produção. As hortaliças também têm destaque na agricultura do município, seguidas do cultivo do café, da criação de aves e suínos, pecuária de corte e leite e fruticultura.
  Dados da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento apontam que o índice de evasão escolar no meio rural de Londrina se manteve nulo nos últimos quatro anos. Segundo o secretário Nilson Ladeia, mais
de 10 mil alunos deixam os
sítios todos os dias para
estudar nos distritos.
  A meta da secretaria para os próximos anos, informa Ladeia, é gerar ainda mais emprego e renda nos distritos. De acordo com o secretário, serão elaborados diferentes planos de ação, respeitando a vocação agrícola de cada distrito. ‘‘A diversificação é a chave’’, acredita. Entre as opções, ele aponta a produção de leite, feijão, bicho-da-seda e hortaliças.
  Para o presidente do Sindicato Rural de Londrina, Luiz Fernando Kalinowski, a diversificação deve ser responsável. ‘‘Como a agricultura é dinâmica e instável, o produtor quase sempre fica sem saber o que fazer. Por isso,
a análise clara dos empreendimentos é
fundamental para evitar ainda mais crises’’, analisa.
  A transformação dos produtos primários também pode ser uma importante fonte de recursos financeiros. ‘‘Diferente do que ocorre no Sul do Estado, ainda não temos tradição em agregar valor à nossa produção’’, assinala Nilson Ladeia.
  No entanto, ressalta o secretário, o mercado de Londrina não demanda produtos de qualidade. Segundo ele, a população ainda é formada por filhos de agricultores, que não se interessam em comprar produtos exóticos no mercado, porque os cultivam na chácara da família.
  ‘‘A maior parte da produção diferenciada de Londrina é comercializada nos grandes centros urbanos de Curitiba e São Paulo, onde a mentalidade do consumidor é diversa’’, informa Ladeia. Ele afirma que apenas as verduras produzidas na região conseguem atender a demanda das centrais de abastecimento do município. (M.G.)


Cresol é exemplo de organização agrícola
  Para o secretário municipal de Agricultura, Nilson Ladeia, os pequenos agricultores da região estão amplamente amparados pela assistência técnica e também com recursos financeiros, por meio do Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar (Pronaf). ‘‘Falta apenas organização aos
produtores’’, opina.
  Exemplo de organização agrícola, a Cooperativa de Crédito Solidário (Cresol) nasceu de uma iniciativa da Prefeitura e consolidou-se em abril deste ano, reunindo cerca de 200 produtores
rurais de Londrina e região.
  Segundo o secretário, a cooperativa possui recursos à vontade para fornecer crédito aos pequenos agricultores de Londrina, Tamarana, Cambé, Bela Vista do Paraíso e Marilândia do Sul. ‘‘O dinheiro vem do Banco Central. Para cada R$ 1 poupado pelos cooperados, a cooperativa recebe R$ 12 do
banco’’, diz.
  A liderança é dos próprios produtores, que decidem em conjunto a aprovação de crédito para os demais associados. De acordo com Ladeia, cada cooperado tem a disposição cerca de R$ 5 mil para investimentos na propriedade, além de recursos para o custeio da safra.
  Ainda segundo o secretário, todos os agricultores foram treinados para, no futuro, seguirem seu próprio rumo. ‘‘Assim eles não precisam depender tanto do governo’’, comemora. (M.G.)

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