Luz elétrica, telefone, geladeira, forno de microondas, avião, carro, ônibus espacial, computador e internet fazem parte da extensa lista de facilidades criadas nos últimos 150 anos pelo homem que, a despeito de sua inteligência e habilidade, continua dependendo dos animais. Além daquelas atividades mais corriqueiras em que a força dos bichos torna-se indispensável - no campo e até mesmo nos centros urbanos ainda é possível ver carroças sendo puxadas por cavalos ou burros - nos últimos tempos eles têm sido utilizados em funções diversas e surpreendentes.
Que o diga o adestrador Giovane Chrisostomo, de 28 anos, cuja missão, há uma década, é treinar cães para a realização de tarefas muito especiais: guiar deficientes visuais e auxiliar a polícia a detectar drogas. Ele garante já ter treinado em Curitiba cerca de 800 animais para farejar e encontrar narcóticos. O trabalho não é simples e o treinamento específico para essa tarefa leva de dois a três anos. ''Nem todas as raças podem ser utilizadas. Costumo treinar labradores e pastores de linha de trabalho. Porém, é preciso treinar vários animais até encontrar um que se adapte à tarefa. Muitas vezes, de dez animais apenas um pode ser aproveitado para atuar com os policiais'', explica o treinador.
Depois de realizar diversos cursos, inclusive no exterior, Giovane Chrisóstomo que garante não trocar a profissão por nenhuma outra - ''adoro trabalhar com cães'' - descobriu uma nova e gratificante atividade em que os cães também são utilizados como ferramenta de trabalho: a cinoterapia. Nesta atividade, os animais auxiliam terapeutas a tratar de problemas como depressão e ansiedade até casos mais graves, como autismo, paralisia cerebral e psicose. Giovane presta serviço a uma clínica curitibana, orientando famílias que passam a manter cães em casa como extensão do tratamento de crianças e adolescentes.
''Nesta técnica, em que trabalhamos principalmente a auto-estima, pai e mãe trabalham juntos com o terapeuta e 99% dos pais querem ter o cão em casa'', comenta a pedagoga Laiz Beerends, especializada em educação de portadores de necessidades especiais que, junto com a psiquiatra Alessandra Comin, dirige uma clínica onde é aplicada a terapia facilitada por cães. Diferentemente do que ocorre na chamada terapia assistida por animais, em que eles são levados a hospitais e instituições para distrair e alegrar pacientes, a técnica aplicada na clínica estimla o convívio entre o cão e o paciente.
''Em apenas dois anos meu filho melhorou muito. Agora, ele consegue sustentar a cabeça, vira de um lado para o outro, ele gosta dessa interação com o cão'', conta a engenheira de produção Paula Chapouto, mãe de Bruno Coelho. O menino, de oito anos, é portador de paralisia cerebral e convive em casa com um samoieda, mesma raça de quatro cães que ''trabalham'' na clínica. Paula e o marido, Rui Coelho, mudaram-se de Portugal para o Brasil com o filho depois que amigos contaram sobre a existência desse tratamento. Sem dúvida, uma nova interpretação para a máxima de que o cão é o melhor amigo do homem.

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