Foto: Jaelson LucasFrancisca de Oliveira Ferreira: ''Vou trabalhar enquanto aguentar'' A ROTINA DOMÉSTICA Todos os dias, elas deixam suas casas para compartilhar da intimidade de outra família. Reflexo da vida moderna, as empregadas domésticas assumem as responsabilidades de outras mulheres que também deixaram suas casas em função da necessidade de trabalhar. Para elas, a rotina nunca muda. Durante a semana, têm que lavar, passar, cozinhar e limpar para a patroa. Aos sábados e domingos, normalmente faxinam suas próprias residências para, na segunda-feira, começarem tudo de novo. Apesar de terem conquistado o direito à carteira assinada e recolhimento do FGTS, muitas vezes relevam essas conquistas em função da tênue linha que separa sua vida profissional da intimidade dos patrões. Ela divide com eles todas as particularidades da vida privada, pois está presente nos momentos distantes do trabalho e outras responsabilidades sociais. Consideradas como ‘‘parte da família’’, acabam deixando passar as oportunidades de serem reconhecidas como profissionais, abrindo mão de seus direitos. E apesar de integrar a rotina familiar, no final do dia enfrentam ônibus lotados para voltar à periferia. Francisca de Oliveira Ferreira, 52 anos, é empregada doméstica na casa de dona Eunice há 13 anos. ‘‘Mas trabalho desde que me conheço por gente’’, diz. Registrada em carteira, ganha R$ 280 mensais para manter a ordem na residência da patroa. Mãe de seis filhos, conta que a vida ficou mais difícil depois que o primeiro marido morreu. ‘‘Precisei me tornar pai e mãe de repente, não podia pensar em parar de trabalhar’’. Casada pela segunda vez, sustenta a família com a ajuda de três filhos, pois o marido é doente e não pode arrumar emprego. Para ajudar uma filha que mora longe, durante a semana cuida de quatro netos. ‘‘Só descanso no fim de semana’’, afirma. No fim de semana ela limpa a casa, lava e passa a roupa, cumpre todas as obrigações de dona de casa que ficaram para trás por causa da correria. E quando surge oportunidade, trabalha de diarista. ‘‘Às vezes fico muito cansada, mas não posso fazer nada, trabalhar faz parte da vida, né?’’, conforma-se. Para os filhos, ela espera um futuro melhor. Com muito orgulho, ela fala do ‘‘menino’’ que conseguiu estudar e agora é auxiliar de enfermagem. ‘‘Meu filho aceitava qualquer trabalho para pagar o curso. Se a gente batalhar, pode melhorar de vida’’. Apesar de gostar muito da família de dona Eunice, Francisca sonha com o dia em que abrirá seu próprio negócio. ‘‘Quero ter uma pastelaria ou vender salgadinhos. Gosto muito de fazer essas coisas’’, explica. Mas não cogita a idéia de se aposentar. ‘‘Vou trabalhar enquanto aguentar. Nem penso em levar outra vida’’.

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