A rota da lata
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
Diariamente, Antônio Ernandes Daledone acorda cedo para recolher as latas de refrigerante, cerveja, suco e chá deixadas nos lixos da Rodoferroviária de Curitiba. Seis horas da manhã ele coloca as primeiras latas de alumínio na sacola. Durante todo o dia permanece na mesma região, recolhendo o lixo dos viajantes que passam pelo local. No final da carga horária diária, que termina às 23 horas, Daledone acumula três quilos de latas. Ele recebe R$ 3 por quilo e vive com R$ 9 por dia. São necessárias 70 latas de 350 ml para acumular um quilo de alumínio.
Há 8 anos Daledone segue esta rotina. Ele trabalhava como porteiro em condomínios, mas o alcoolismo foi a causa da demissão. Atualmente vive na rua. Com 62 anos, Daledone acredita que contribui com a cidade fazendo a coleta das latas. Ganho um dinheirinho e ainda ajudo com a limpeza, orgulha-se.
Em época de férias, o trabalho das zeladores da Rodoferroviária aumenta. Assim, os catadores de lata ajudam bastante. É isso que considera a zeladora Ana Maria da Silva, que trabalha no local há dois meses. Ela acabou virando amiga dos catadores e considera o serviço deles importante. Em alta temporada as lixeiras ficam lotadas. Eles ajudam bastante. São bem educados. Quando acho alguma lata de alumínio no lixo deixo separada para eles, conta Ana Maria.
Os catadores vendem as latas para lojas especializadas em compra e venda de alumínio. Um dos exemplos é a Metal Braz. Minha família inteira é sucateira, brinca Sérgio Cruz, proprietário da loja. No estabelecimento ele recebe aproximadamente cinco pessoas por dia interessadas em vender as latas que coletam.
Cruz acumula, em média, uma tonelada por mês. Ele compra o material por R$ 2,80 o quilo e revende para uma empresa de reciclagem por R$ 3,50. As grandes sacolas que armazenam as latas na Metal Braz comportam 70 quilos do alumínio e a empresa que recicla recolhe o material diretamente na loja. Para trabalhar neste setor é necessário estômago forte. O cheiro da bebida acumulada nas latas não é agradável, sobretudo o dos recipientes de cerveja.
O próximo passo é entregar o material para uma empresa que limpa as latas, retirando restos de líquido, plástico e demais lixos, e prensa o material em blocos quadrados. Um dos estabelecimentos que faz este serviço é a Residil. Eles arrecadam aproximadamente 20 toneladas de latas de alumínio por mês. Compram o material por R$ 3,30 e vendem por R$ 3,70. Mas isso depende do cliente e da época. Clientes mais antigos e a oferta do alumínio no período podem alterar os valores.
Os blocos prensados pela Residil são enviados para a Aleris, empresa de fundição de latas de alumínio localizada em Pindamonhangaba (SP). Lá os blocos passam por mais um processo de limpeza e são enviados para o forno, a uma temperatura de 660 graus. A Aleris fornece o alumínio líquido e também em pequenos blocos sólidos, chamados de lingote. O processo não acaba por aí.
O material é encaminhado para outra empresa que faz chapas finas de alumínio. Outro lugar fabrica as latas e a tintura e outra as tampinhas. Aí sim elas são repassadas para a fábrica das bebidas que enchem a lata com os líquidos comercializados em mercados, bares e restaurantes.
O trabalho de reciclagem de latas de alumínio é uma das maiores fontes de renda para milhares de catadores do Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Alumínio (Abal), 85% das latinhas consumidas no País são recicladas. São aproximadamente 200 mil catadores em todo o Brasil. Para reciclar uma tonelada de lata gasta-se o equivalente a 5% da energia necessária para produzir a mesma quantidade de alumínio. Todo o processo de reciclagem, desde o trabalho dos catadores até a lata pronta, dura 33 dias. O brasileiro consome por ano 54 latas de bebida. Já os norte-americanos consomem aproximadamente 375.


