'A riqueza não está nos cofres'
O professor e historiador Jorge Cernev é paulista, nascido em Quatá no dia 9 de novembro de 1934, "um mês antes de Londrina". Com apenas 3 anos, ele mudou-se com a família para a Colônia Concórdia, onde hoje fica Ibiporã, que reunia a comunidade eslava da região. "Meus pais nasceram na Rússia, mas vieram para o Brasil como romenos quando o território onde vivam foi anexado pela Romênia ao fim da Primeira Guerra Mundial", explica ele, que viveu na Colônia até concluir o então chamado curso primário, na escola que atendia as comunidades espanhola, italiana e russa. "Quando entrei na escola, só sabia falar 'bom dia' em português", recorda-se o professor, que veio para Londrina sozinho com o objetivo de continuar os estudos.
Desde então, a vida do mestre foi uma sucessão de esforços para levar adiante a vontade de estudar. Na Londrina ainda adolescente, ele morou como interno no antigo Instituto Filadélfia para cursar o "ginásio" no Colégio Londrinense. "Aos sábados, pegava ônibus para Ibiporã. Quando chovia, o ônibus não partia, então a gente ia a pé", recorda.
Com a crise do café, a família mudou-se para Maringá e ele passou a viver com uma família amiga. Foi neste tempo, ainda cursando o Ensino Médio, que aprendeu o primeiro ofício. "Eles tinham uma ótica, então, por 19 anos trabalhei como ótico", revela.
Numa Londrina ainda sem instituições de ensino superior, Cernev foi incentivado pelo professor Zaqueu de Melo que dá nome ao teatro a sonhar com a faculdade. Mesmo tendo a obrigação de enviar dinheiro mensalmente à família, ele se inscreveu em 1956 no primeiro vestibular da Faculdade de Filosofia de Londrina, um embrião da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que começava a se configurar. "Apenas cinco pessoas conseguiram se inscrever, porque o pessoal não tinha documento de identidade. Eu mesmo fui de avião até Curitiba para conseguir o documento e não perder o prazo."
A aventura não foi suficiente para concretizar o sonho do curso superior. A faculdade só foi efetivamente aberta dois anos depois, quando Cernev se matriculou com outros seis colegas no curso de História. "Esperei quatro anos até chegar uma faculdade em Londrina. Como queria dar aulas, ainda tive que esperar mais um ano para concluir, pois não havia a oferta do curso de Didática", revela.
Ainda trabalhando como ótico, ele começou a lecionar na educação básica. A primeira experiência como professor universitário veio através de outro nome da história de Londrina, o Padre Carlos Weiss, que dá nome ao Museu Histórico da cidade. "Ele ficou doente e me convidou para ficar com as aulas da faculdade até recuperar a saúde", diz. Em seguida, prestou concurso e selou o próprio destino. "Fiquei por 38 anos na UEL. Fui o primeiro chefe de departamento de História e o segundo diretor do Centro de Ciências Humanas (CCH)."
Aposentado há uma década, ele continua ensinando em atividades voluntárias na Igreja Batista. Como Londrina, uma jovem cidade de 80 anos, Cernev mantém um espírito jovial, apesar das "pernas não acompanharem a cabeça", como costuma brincar. "Sinto-me extremamente realizado por chegar a esta idade. Nunca quis ser o primeiro da escola, gosto mesmo é de aprender, o que continuo fazendo até hoje", diverte-se.
Para a cidade que lhe deu a oportunidade de viver a vida que escolheu, ele deseja que, em 20 anos, haja mais qualidade de vida. "A riqueza não está nos cofres, mas no bem estar do povo, que precisa ser alimentado no estômago e nas ideias". (C.A.)





