O entroncamento das zonas Sul e Oeste revela duas Londrinas, muito próximas entre si, que a maioria dos habitantes da cidade nunca viu. Uma, representada pelos jardins Maracanã e João Turquino, afasta naturalmente os visitantes pelo temor da violência e por seus próprios obstáculos de acesso, já que só agora os assentamentos começam a ganhar asfalto. A outra, formada pelo complexo de condomínios horizontais do projeto Royal, é protegida por uma rigorosa rede de segurança, que só permite a passagem de um estranho após ele dizer a que veio e fornecer, no mínimo, seu nome completo e número de RG.
Da soma de ambas, resulta a Londrina dos Contrastes – perfil de dez entre dez municípios brasileiros, mais acentuado em alguns – que já não consegue manter a distância física entre seus ricos e seus pobres. O município não pára de se alargar nos dois extremos: consolida novos bairros de alto padrão na Zona Sul, com os residenciais horizontais Alphaville, Royal Golf, Royal Park, Royal Tennis, Royal Forest (os dois últimos em fase de implantação) e a expansão da Gleba Palhano; e não consegue controlar o surgimento de mais favelas, assentamentos e ocupações por todas as regiões, principalmente em fundos de vale.
A cidade entrou no século 21 exibindo uma renda per capita média de aproximadamente R$ 440 (segundo estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o PNUD, com dados de 2000), mas possui milhares de habitantes ganhando muito menos ou muito mais do que isso. No terceiro volume do ‘‘Atlas da Exclusão Social no Brasil’’, estudo organizado pelo economista paulista Márcio Pochmann e divulgado este ano, Londrina figura entre os 50 municípios (36º lugar) com maior número de famílias ricas do País. Segundo o estudo, 3.169 famílias londrinenses possuem rendimentos médios superiores a R$ 22 mil mensais.
Na outra ponta, a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) aponta a existência de mais de 60 áreas de moradias precárias no município (entre favelas, assentamentos e ocupações, alguns regularizados e urbanizados), onde residem quase 10 mil famílias. A Secretaria Municipal de Assistência Social, que está realizando um mapeamento para distribuição de benefícios federais como o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação, registra a existência de 36 mil famílias dependentes desses auxílios na cidade.
‘‘Esse é o drama que estamos produzindo. A inépcia do Poder Público está fazendo com que regiões tidas como nobres, onde se fizeram grandes investimentos, venham a se degradar rapidamente. Estamos construindo condomínios caríssimos, que daqui a alguns anos não vão valer nada porque têm como vizinhos locais como o Maracanã, que não param de crescer. Não param porque não existe uma política global de controle disso; e a prefeitura, sozinha, não tem dinheiro para tirar os moradores de lᒒ, avalia o professor de economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Miguel Arturo.
Mais otimista, o engenheiro civil Marcos Holzmann, diretor da construtora responsável pelos condomínios Royal, acredita no poder da iniciativa privada para reduzir as diferenças sociais e econômicas. ‘‘Fizemos uma pesquisa entre os nossos moradores e constatamos que hoje há uma predisposição de todos em relação à responsabilidade social. Eles mesmos poderão desenvolver atividades com o pessoal do Maracanã, do João Turquino, e, para isso, já reservamos uma área (próxima aos condomínios) de 7,5 mil metros quadrados. Apesar de nos isolarmos fisicamente pela barreira da segurança, não podemos estar longe da realidade do mundo’’.

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