A revelação da cultura
Caminhante, não há caminho
se faz o caminho ao caminhar
Antonio Machado
Temerário projetar perspectivas para a Cultura no Paraná no século entrante sem considerar a referência histórica de sua recente inserção no ideário político de construção das sociedades e das nações. Na malha volúvel em que se entrelaçam questões emergentes como a planetarização e a consequente homogeneização a partir dos paradigmas mercadológicos, o enfrentamento inevitável do mercado de trabalho e, concomitantemente, a preservação e estimulação de nossas raízes culturais como fonte da indentidade regional representam certamente o grande desafio para os trabalhadores da cultura no próximo século.
Os modelos e os projetos de política cultural (ou a ausência deles) não têm servido sequer para cumprir satisfatoriamente o direito constitucional do acesso e usufruto democrático dos bens culturais. Muito menos para estimular a criatividade e a inventividade, matéria-prima do desenvolvimento das civilizações e da consolidação da cidadania crítica e participativa.
A cultura política tem ignorado e estigmatizado a ação cultural como assunto de última prioridade. No entanto, mais e mais se evidencia a essencialidade da Cultura como base de sustentação da autonomia das nações, como protagonista na economia de mercado e como instrumento privilegiado na construção da paz, da tolerância e da solidariedade.
O Paraná já participa, quase despercebido, dessa tarefa, caminhando e fazendo caminhos.
Com a atuação apenas coadjuvante da administração pública, o trabalho cultural em nosso Estado vem florescendo quase que espontaneamente. As festas populares tradicionais têm crescente presença comunitária e regional. Os eventos artistico-culturais são expressivos e ganham dimensões extra-fronteiras, nacionais e internacionais. Os Festivais de Música (Maringá, Curitiba, Cascavel, Londrina), os Festivais de Teatro (Curitiba, Ponta Grossa, Campo Mourão, Antonina), de Corais (Ibiporã, Londrina), a Festa das Nações (Sertaneja e Guaíra). A Semana de Arte e o Festival Internacional de Londrina (de todas as artes), o mais antigo do continente juntamente com o de Manizales/Colômbia. As grandes exposições agropecuárias ou industriais.
O número crescente de espaços cênicos com a construção de teatros municipais nas médias e pequenas cidades, os maravilhosos espaços de Curitiba, o Teatro Guaíra, a expansão da produção artística de boa qualidade. A preservação do patrimônio histórico e cultural vem sendo valorizada. Vide a recente inauguração do Museu Histórico de Londrina, da Universidade Estadual de Londrina, considerado agora modelo no país. A disputa pela Estrada do Colono, arriscada a perder sua condição de patrimônio da humanidade. A expressiva contribuição da indústria cinematográfica e a crescente qualidade da produção musical e literária, o espaço ocupado por nossos artistas plásticos no País e no exterior.
Toda essa atividade, resumo imperfeito, vem se expandindo. A tendência é a auto-sustentabilidade. Longe de nossa previsão, entretanto, dispensar a participação dos governos estadual e municipais no suporte e no planejamento da organicidade e orquestração das ações culturais. As leis de incentivo estadual (em aprovação) e municipais são necessárias e, mesmo com equívocos ou imperfeições, promovem uma interação necessária da gestão cultural com a sociedade civil e a iniciativa privada. Da mesma forma, a confluência dos programas das organizações não-governamentais com a percepção crescente das empresas em relação ao marketing cultural.
A caraterística cada vez mais evidente é a afirmação da vida cultural local, dos seus costumes e da sua auto-valoração, como contraponto imprescindível à tendência homogeneizante do mercado global. A perspectiva de projetos includentes que estabeleçam pontes para a travessia em direção às populações excluídas e ao diálogo entre os diferentes propiciará a interação e parceria comunitária com os artistas e agentes culturais, a estimulação da criação, da formação de gestores comunitários, a instalação da solidariedade, o respeito à diversidade e à diferença.
Por outro lado, tivemos em 2000 a surpresa de um turning point que poderá ser o marco da mudança e de previsões otimistas do ponto de vista socio-cultural. A população fez opções que contrariaram as expectativas padronizadas e cristalizadas do marketing político. Isso está determinando sobressaltos na cultura política do País, do Estado e dos municípios. Há algo de novo no reino, e no ar, além dos aviões de carreira. Os governantes se obrigam a reavaliar sua atuação e seu projeto político-administrativo em todas as direções. Isso é bastante positivo. Resgata-se a autocrítica e a sensibilidade. A área da Cultura já está sinalizando nesse sentido.
- Nitis Jacon é diretora do Festival Internacional de Teatro de Londrina (Filo)





