A rainha da noite
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Fernanda Lins, 20 anos, está na prostituição há três meses e diz que nunca parou para contar o quanto ganha. A pedido da FOLHA, reflete e por fim revela: R$ 15 mil mensais. A entrada nesse universo foi dura. "Mas estava precisando e encarei." Na madrugada de segunda-feira ela venceu 30 candidatas e foi eleita a Rainha do 39º Bem Bolada, que elege a garota de programa mais bonita de Curitiba desde 1970. O prêmio é R$ 3 mil em dinheiro além do convite para sair na capa de uma revista.
Realizado na danceteria Crystal Palace Hall, na Visconde de Guarapuava, a 39ª edição reuniu representantes de 14 boates. A vencedora trabalha na Sex Night Club. "Dentro eu cobro R$ 400. Fora, de R$ 600 a R$ 1000 por programa", conta. A também catarinense Daniela Ribeiro, 19, é sua colega de boate. Começou a fazer shows há um ano; há três meses também faz programas. "Foi uma transição complicada. Eu trabalhava em uma imobiliária", lembra. Fica em Curitiba de segunda a quinta. Em uma boa semana de trabalho, ganha R$ 3 mil. "Já botei meu silicone. Agora quero comprar carro e apartamento e depois paro", conta. "Não dá para comprar carro e apartamento trabalhando normal."
Fernanda e Daniela toparam participar, mas de início não sabiam que era um concurso de beleza para garotas de programa. Acabaram cedendo por entenderem que seria uma boa propaganda do seu trabalho. Cada uma investiu R$ 800 na fantasia, uma alegoria de Carnaval. A terceira concorrente que representou a mesma boate é Daniela Castro, 28. Sua vestimenta cor-de-rosa custou R$ 700 e foi feita por Nisse, da Loja 10, da Galeria Colonial, a mesma onde fica a Sex. "Costuro para todas as casas. Para boate, só eu que faço."
Fábio, 23, o namorado de Daniela, acompanha tudo da plateia. "A natureza foi muito boa com ela", resume. Sobre o Bem Bolada, explica: "É como concurso de miss e vestibular; você entra para ganhar". Quando vou entrevista-lo, o pedido de sua namorada é que não mencione a palavra ciúme nas perguntas.
O público não foi tão numeroso quanto em edições anteriores. São 900 pessoas sentadas nas mesas e também em pé enquanto em 2008 eram 1300. No ingresso, não há discriminação de sexo: todos pagam R$ 25.
Em frente à passarela disposta em formato de "T", por onde as garotas arriscariam seus passos de samba depois das duas da manhã, ficam as mesas dos jurados. São julgadores que sempre formaram um time eclético. Por ali passaram o ex-jogador do Atlético Barcímio Sicupira e o vereador Roberto Hinça.
Nesta edição, jornalistas, empresários, o dono da Funerária Paranaense além de Arlindo Ventura, 36, o Magrão do bar O Torto. "Fiquei com a ideia de que as competidoras não estavam tão gabaritadas; apenas umas cinco ou seis", resume o jurado. "Mas por uma questão ética só dei notas para cima de seis. Tem que incentivar." Magrão diz que seus critérios foram mais artísticos e menos eróticos. Tal como o restante do júri, seu papel era o de lançar a nota de zero a dez para as competidoras.
Ele sugere uma banda ao vivo para cobrir os buracos e evitar a evasão do público. Às 4h30, hora da premiação, apenas um terço da plateia ainda estava cheia. O radialista Candido Oliveira é o animador da festa. "As mais belas mulheres do Sul estão na passarela", revela. "É o principal concurso de beleza da região Sul do Brasil." Ele leva jeito. E consegue ser sutil, evitando termos jocosos típicos de locutores de zona. É o 18º ano em que apresenta o concurso.
O público é mais comportado do que em uma boate. Os seguranças impedem as pessoas de chegarem perto da passarela, o que ajuda a conter a turma - um sem número fotografam ininterruptamente com o celular. Não existe contato físico entre as competidoras e a plateia. "Não é vulgar", define o rei momo do Carnaval de Curitiba, Mauro Tibúrcio, 40, frequentador assíduo. Algumas das meninas tiram partes da roupa. Outras não. "Já chega fazer o que a gente faz, não precisa apelar", justifica Daniela Ribeiro, da Sex.
Bastidores
No camarim e no corredor que leva ao palco muitas das meninas estão nitidamente nervosas. Uma delas mostra as mãos trêmulas ao repórter. Outra fala de arrependimento. Uma terceira afirma estar tranquila. Seu nome é Nikita, 26, candidata que leva o número um grudado à cintura.
"Faz cinco anos que participo e sempre sou a primeira a entrar. Mostro que não precisa ter medo." Ela representa duas casas. Das 9 às 22 horas trabalha na Débora Massagens, onde, diz, os homens são mais gentis. Das 23 às 6 horas, na Bella Night. Dorme menos de três horas. "Juntando dia e noite, dá R$ 5 mil por mês." É prostituta há sete anos. No Bem Bolada, tem um estilo bem particular na passarela - o que mostra em suas duas entradas individuais. "Meu desfile é diferente. Dou minhas cambalhotas", explica. "Todo mundo sabe quem vai ganhar. Estou aqui para divulgar o nome da casa."
Eduarda, a candidata de número quatro, não revela a sua idade - as que contaram têm entre 19 e 39 anos. Representa o 88 Singles Bar. "Hoje não trabalho mais lá. Estou aqui porque perdi uma aposta", comenta sem dar mais detalhes. "Me disseram que não tinha repórter, filmagem, fotos. Não quero ganhar, pois se isso acontecer vou sair na foto", explica.
Eduarda já preparou a desculpa. "Vou dizer que fui em um baile de Carnaval. Para elas é uma exposição importante e necessária, mas eu não quero isso." A ficha de inscrição disponível no site do concurso é explícita quanto à divulgação de imagens das candidatas.
Crise
Natasha Jackson, 32, bate no peito com orgulho. "As minhas três filhas sabem. Gosto do que faço independente do dinheiro." Representa a Dlirius Drink Show. "Já cheguei a ganhar R$ 1,5 mil em um mês. Agora estou trabalhando registrada como doméstica. Ganho a mesma coisa." O motivo para ela ter deixado a noite é simples. "Deu uma caída boa. A crise afeta bastante."
Lourdes, 39, entrou para a prostituição há dois anos. "Para unir o útil ao agradável." Trabalha na 88 Singles Bar. Para aumentar a renda, vende jóias e roupas. Sobre a experiência no Bem Bolada, diz que a diferença está na quantidade do público, que é muito maior do que nos shows de strip tease do dia-a-dia. Gosta da experiência e promete voltar no ano que vem, aos 40. "Com certeza. Quatro ponto zero redondo. Se você não aproveita cada momento, vai fazer isso quando?"
Pouco antes de ser coroada rainha, Fernanda Lins levou um susto: um primo que não sabe do seu trabalho estava na plateia. "Mas fui esperta. Apontei para ele, que pediu silêncio. É casado." Ao ser anunciada a Bem Bolada, disse estar lisonjeada. Perguntaram seu cachê, interessados vieram pedir seu contato. Ela ainda não sabe se vai mudar alguma coisa. Não era hora para pensar nisso. Do alto de seus 20 anos, estava certa do destino de sua noite. "Hoje eu quero dormir."


