A primeira comandante da PM
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segunda-feira, 21 de maio de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Ela é a primeira e única mulher do Sul do Brasil a chegar ao posto de tenente-coronel da Polícia Militar. Foi a primeira da região a comandar um Batalhão da Polícia Militar, o 12º, onde permaneceu por dois anos. Rita Aparecida de Oliveira, 48 anos, fez parte da primeira turma de mulheres a ingressar na Polícia Militar do Paraná, em 1977. Foi a primeira vez que o concurso exigiu ensino médio completo.
Além disso, a elas não era permitido casar por até dois anos a partir da data de admissão, e a solteira que ficasse grávida era presa. Elas também eram obrigadas a usar saia mesmo nos dias mais frios de inverno. O Paraná foi o segundo estado do Brasil a permitir a participação das mulheres na Polícia Militar. O primeiro foi São Paulo, em 1955, pioneiro na América Latina.
FOLHA DE LONDRINA - Como foi decidir ser policial militar naquela época ingressando na primeira turma de mulheres da corporação?
Tenente-coronel Rita Aparecida de Oliveira - Na verdade a minha decisão foi motivada pela necessidade do primeiro emprego. Eu não conhecia a Polícia Militar como instituição, como funcionava.
FOLHA - Foi difícil?
Coronel Aparecida - Foi. Eu e minha família tínhamos vindo do interior do Paraná e, claro, eu precisava dar prosseguimento aos estudos. Então eu estava batalhando um trabalho. Aí surgiu a oportunidade de fazer o concurso da Polícia Militar. E já em seguida comecei a gostar da instituição e a me dedicar à profissão de policial militar. A minha turma fez curso direto para sargentos. Já no curso de sargentos eu fui a primeira colocada da minha turma, com a peculiaridade de que eu era a mais nova. E a partir do ato da nossa formatura, em 1978, passei a ser a mais antiga do sistema, por eu ter sido a primeira colocada. E aí começou a minha luta, a minha saga, já com desafios, mas valeu a pena. Das pioneiras somos seis na ativa.
FOLHA - Há igualdade entre homens e mulheres na Polícia Militar hoje?
Coronel Aparecida - Em 2000, nós deflagramos uma campanha com o apoio do comando da instituição, e o governo do Paraná encaminhou um projeto de lei para a Assembléia (propondo a unificação dos quadros). O projeto foi aprovado, extinguiu-se o quadro à parte das mulheres e passamos a concorrer num único quadro. Então em 2000, através da lei 12.975, houve a unificação de quadros com um limitador de até 6%. Por exemplo, de 500 vagas para inclusão na Polícia Militar, 30 poderiam ser destinadas às mulheres. E hoje nós temos até 50%. De 1980 para 1981, o Paraná abre o trabalho especialmente voltado, como dizia a lei, para idosos e crianças, assistência social, relações públicas, informações, e começa a expandir para a área operacional. As policiais militares do Paraná foram as primeiras a irem para o policiamento de trânsito, em 1981. Hoje elas podem ser destinadas a qualquer setor porque a preparação e a formação é a mesma. Há igualdade entre homens e mulheres no trato, no emprego, no dia-a-dia. Dificuldades, claro, nós vamos ter sempre e é das dificuldades que a gente cresce.
FOLHA - O que ainda falta ser conquistado?
Coronel Aparecida - O que falta hoje é um maior avanço no número, sempre com qualidade, de mulheres dentro da instituição. Até o final de 2005, nós éramos em torno de 500 mulheres, não chegava a 3% do efetivo da Polícia Militar. Com o advento da lei que nos destina até 50% das vagas, num único concurso - esse último, com a abertura de mil vagas - foram aprovadas 342 mulheres, fora as que foram chamadas depois. Isso representou 69% de acréscimo. Nós pulamos de 500 para 800. Levamos 28 anos para ter um número 'x' e em apenas um concurso crescemos 69%. Então eu acredito que a partir dos próximos concursos nós vamos começar a crescer.
FOLHA - Como a senhora chegou à coordenação estadual do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd)?
Coronel Aparecida - O Proerd prepara o policial militar que faz o policiamento preventivo-repressivo para trabalhar prevenção pura, com um ser muito especial, a criança, e uma classe muito especial, a dos educadores. Então essa transformação me encantou e eu aceitei o convite. A partir de novembro de 2002, eu estava sub-comandante do 12º (Batalhão da PM), vim para o policiamento da Capital ser a chefe da logística e ser a vice-coordenadora do Proerd. E estou aqui até hoje, agora na condição de coordenar no Paraná esse grande programa, que é o único que fala a mesma linguagem de Norte a Sul do país, e o único das polícias militares que está presente nos 27 entes federativos.
FOLHA - Qual a sua meta atual?
Coronel Aparecida - Enquanto coordenadora do Proerd hoje é continuar conduzindo bem e fortalecer o programa num trabalho de rede, porque ninguém vai a lugar nenhum sozinho. Eu sou também vice-coordenadora do Conselho Estadual sobre Drogas, da secretaria de Justiça e Cidadania, e estou aguardando ter o nome homologado para ser a presidente. Nós temos um grande trabalho para fazer em parceria e eu digo com muito orgulho que o Proerd do Paraná é referência nacional. A minha grande preocupação é não só trabalhar com a sociedade mas também para uma polícia social e comunitária, com policiais que estejam bem. Porque não adianta eu querer exigir que o meu policial faça um excelente trabalho de polícia comunitária lá fora se não estão sendo comunitários com ele aqui dentro. Ele vai ser cada vez melhor lá fora se ele for cada vez melhor tratado e respeitado aqui dentro. E do ponto de vista da minha carreira, estou hoje em contagem regressiva. Já estou com 32 anos de trabalho e tenho até o mês de março do ano que vem para sonhar em ser coronel. Que é um sonho que eu, claro, com certeza quero realizar. Ainda sou a única tenente-coronel do Sul, isso eu falo até com uma certa tristeza porque gostaria que na minha instituição tivesse mais mulheres tenentes-coronéis comigo, sei o quanto custou chegar a cada posto, a cada promoção, e quero ter a oportunidade de ser coronel, o último posto da Polícia Militar do Paraná.


