Nem bem o dia amanheceu, a notícia já corria de boca em boca. ‘Londrina agora tem praia’. Explicação, ninguém tinha, mas o fato era esse mesmo: da noite para o dia, apareceu uma praia na cidade. Praia de verdade, com mar, areia e ondas. Do gari ao empresário, a reação era a mesma: primeiro, incredulidade; depois, todo mundo correndo lá para ver o milagre com os próprios olhos. Por causa disso, a cidade parou. Nas padarias, nada de pão; nas escolas, alunos e professores faltaram. As bancas de jornais só abriram bem depois do meio-dia e as patroas só não arrancaram os cabelos com a falta
das empregadas porque elas também
foram ver o mar.
  No dia seguinte, a praia não era mais novidade e no entanto, a cidade não voltou ao normal. Nem nos dias que se seguiram. Afinal, era verão. As lojas ficaram vazias e até os comerciantes começaram a fechar mais cedo. Muitos estabelecimentos criaram um horário de almoço que se prolongava até a tarde. Médicos não apareciam nas clínicas. No serviço público, o expediente passou a encerrar às 16 horas. Empresários da construção civil ameaçaram demissões em massa porque os trabalhadores não apareciam no serviço. Nas escolas e até universidades (principalmente nas universidades), alunos e professores raramente se encontravam.
  Até o Calçadão ficou vazio - os ambulantes se mudaram todos para a praia, para vender cocada, frutas e salgadinhos. Logo Londrina se tornou conhecida como a única praia do País onde se comia pastel e vitamina.
  Um grupo de empresários, daqueles que gostam mais de dinheiro do que de qualquer outra coisa, foram preocupados falar com o prefeito. Dias depois, o IAP divulgou um comunicado: a água da praia tinha sido analisada e era imprópria para banho. Não adiantou nada, o povo continuava a fazer churrasquinho com farofa ouvindo funk na beira do mar, todo santo dia.
  Numa medida extrema, a prefeitura cercou o local e começou a cobrar pedágio. No mesmo dia os cambistas do terminal se instalaram em volta da cerca. O poder público ameaçou implantar bilhetagem eletrônica, mas ninguém ligou. A empresa de ônibus, que andava com os carros lotados no novo itinerário, passou a cobrar tarifa diferenciada. Nem assim a praia esvaziou.
  Um fim de tarde, um dos empresários, desanimado, vai caminhar à beira do Igapó, agora abandonado. Distraído, ele repara num movimento na beira da água e vê um jacaré. Como ninguém mais vai ao lago, os ilustres moradores, trazidos por um londrinense aventureiro, estão cada vez mais à vontade. O empresário tem uma idéia. Celular na mão,
ele convoca um grupo de colegas para
uma reunião de emergência. E eles
armam um plano.
  De madrugada, uma carreta enorme estaciona perto da praia. Vários contâineres são descarregados no maior sigilo. Em poucos dias, a notícia se espalha: há tubarões na praia.
  A cidade volta ao normal. A praia fica
vazia. Ou quase - sempre aparecem uns pescadores de fim de semana, que não se aventuram a entrar na água e nunca pescam nada.
  Quem capitaliza é o time da cidade, que finalmente tem a mascote do clube em casa.

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