A outra face da identidade feminina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 2008
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Corpo esguio, cabelos lisos tingidos de castanho claro, unhas bem feitas, pintadas com esmalte vermelho, maquiagem leve. O vestido bem ajustado, os sapatos de salto e os acessórios, colar, brinco e pulseira, não deixam dúvidas de que ali está uma mulher que se preocupa com a aparência. Nada de exagero. No modo de vestir ela simplesmente expressa com satisfação - e orgulho, por que não? - a condição feminina.
Mas, o início não foi assim. Rafaelly Wiest, 25 anos, nasceu no corpo de um homem e percorreu um longo - por vezes tortuoso - caminho até conseguir viver plenamente sua real identidade. Atualmemte, é militante e uma das porta-vozes do movimento que luta para que a diversidade sexual seja respeitada em todas as esferas da sociedade.
Na extensa lista de demandas, além da batalha diária contra o preconceito, estão a busca pelo direito de alterar o nome no registro civil e a luta para que as cirurgias de readaptação sexual - popularmente conhecidas por operação de mudança de sexo - tornem-se mais acessíveis. Hoje custam em torno de R$ 20 mil e são realizadas em apenas alguns Estados. O Paraná não está incluído entre eles.
A atuação como militante, que a obriga a lidar com todas essas questões, levou Rafaelly a reafirmar sua feminilidade e enfrentar os desafios de um modo diferente. ''Eu me sinto mulher desde que me entendo por gente. Porém, hoje, com toda essa bagagem, sei me defender ou esclarecer quando é preciso. Há situações em que vale mais a pena ficar calada, em outras é preciso brigar, mas não partir para a violência'', diz ela, que é coordenadora da ONG Transgrupo Marcela Prado.
Mesmo enfatizando nunca ter tido ''luta corporal com ninguém'', Rafaelly tem mostrado que é, sim, boa de briga. No sentido figurado. E, ao menos uma vitória importante ela já conquistou. Estudiosa, disciplinada e dedicada ao trabalho, Rafa, como é chamada no Transgrupo, acaba de ser eleita a representante das causas dos jovens curitibanos.
Durante a Conferência Municipal da Juventude, realizada na capital com a participação de aproximadamente 300 pessoas, mês passado, ela foi escolhida delegada da conferência. ''Eu era a única transexual em meio aqueles jovens e, ainda assim, não senti qualquer discriminação nem passei por constrangimentos. Foi uma enorme surpresa ter sido eleita com o apoio dos movimentos negro, sindical, religioso e de estudantes'', destaca.
Sua próxima missão será defender, durante a Conferência Estadual, marcada para este mês, em Faxinal do Céu (região central do estado), propostas de implantação de políticas públicas nas áreas de educação e saúde que contemplem os interesses ''de toda a diversidade humana'', segundo Rafaelly. ''O plano é trabalhar com educação e saúde, mas voltado a informar (a sociedade) sobre como se dirigir, por exemplo, aos afrodescendentes, às pessoas com deficiência, aí entra também o GLBT (sigla que designa o movimento Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais)'', explica.


