A polêmica sobre os postos de pedágio no Paraná não é recente. A discussão já foi realizada no início do século 19, pelos mesmos motivos de agora. Como as estradas eram esburacadas e de péssima qualidade, todas feitas de chão batido, e as Câmaras que administravam Curitiba não possuíam verba, barreiras de pedágio foram criadas sob protesto dos usuários. O pedágio não era terceirizado e a verba ia para a própria Câmara, com o objetivo de melhorar a estrada. Mas na prática não era bem isso que acontecia.
Naquela época o Paraná era ocupado no Litoral, no primeiro planalto (Curitiba) e segundo planalto (cidades vizinhas). A região do Oeste era selva bruta e começou a ser ocupada apenas no final do século 19.
Para permitir a comunicação entre o Litoral e Curitiba existiam três caminhos principais: Graciosa, Itupava e Arraial. O que se trazia para a cidade e o que era levado para o Litoral passava por um destes caminhos. A origem das estradas é indígena.
O transporte pela serra do mar era difícil. "Quase uma odisséia", explica o arqueólogo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Igor Chmyz. Esses caminhos eram usados para trânsito de pedestres e mais tarde, a medida que eram melhorados, os animais também passaram a levar carga. Bem mais tarde passam as carroças. Então o problema começa no século 18, quando há uma intensificação de movimento de mercadoria e a necessidade de melhorar os caminhos. Eram encarregadas de obras e melhorias as Câmaras das vilas que existiam naquela época: Curitiba, Antonina, Morretes e Paranaguá. Mas a pobreza era muito grande e sempre faltavam recursos. Com a falta de melhoria implantou-se o pedágio para a conservação das estradas, em 1804. Foi uma iniciativa da Câmara de Curitiba, mesmo sem autorização do governo da Capitania (São Paulo).
Neste momento acontece um jogo de interesses pois, com a cobrança, havia renda que revertia em benefício das estradas e vilas envolvidas no percurso. Naquela época havia uma disputa entre Paranaguá-Morretes e Antonina. Para esta interessava o caminho conhecido como Graciosa, já que de Curitiba saía um caminho da parte central (Praça Tiradentes) e continuava pela Rua Itupava, conhecida na época como o caminho da marinha. Esse caminho ia até a Borda do Campo (Quatro Barras). Ali havia uma ramificação: uma parte passava a ser a Graciosa e a outra continuava a se chamar Itupava. Esta descia a serra até Porto de Cima (8 quilômetros de Morretes, no último ponto viável de navegação do Rio Nhundiaquara). Lá era o ponto final.
Durante algum tempo o Porto de Cima foi uma localidade próspera e rica e chegou a virar município. "Especialmente no período da erva-mate, a vida social e cultural de Porto de Cima era impressionante", conta o arqueólogo da UFPR. Depois disso o local entrou em decadência. Isso ocorreu no início do século 20. O caminho, saindo de Curitiba e entrando no Itupava, interessava a Morretes e Paranaguá.
Saindo de Curitiba e entrando pela Graciosa, a estrada continuava e ia até Antonina. Logicamente era mais interessante para a própria Antonina. Frequentes disputas eram feitas pela manutenção de uma ou de outra, já que não havia a possibilidade das duas funcionarem. Tudo dependia dos jogos políticos da época para beneficiar alguma delas. Em certas ocasiões parte daquilo que era arrecadado de tributos no pedágio do Itupava era destinado à Graciosa. O professor conta que eles faziam este jogo meio subterrâneo porque a Curitiba interessava a Graciosa pela facilidade de chegar ao porto. O primeiro pedágio foi instalado no Porto de Cima, em 1805.
Com esta implantação foram realizados muito protesto, assim como existem hoje. "Veja o paralelo que existe na história sobre o mesmo tema. Não muda muito", opina Chwyz. Os usuários pagavam pelo volume da mercadoria que era transportada. Devido aos protestos o pedágio foi suspenso. "Houve um compromisso pela parte dos usuários de se encarregaram da manutenção, o que não aconteceu. Então os caminhos eram impraticáveis".
Recentemente foram descobertos vestígios de uma barreira de pedágio na região da Borda do Campo (bairro de Quatro Barras), conhecido na época como Campina. Ele funcionou durante algum tempo e depois foi transferido para a região da foz do Rio Ipiranga, que hoje é conhecido como São João. Os pedágios eram mudados devido a aberturas clandestinas de desvios. As pessoas encontravam uma rota diferente de fuga do pedágio. Os três caminhos já haviam sido calçados na segunda metade do século 19.

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