A (não) vida de uma galeria
Quem vê a agitação das ruas do Centro de Curitiba pode não imaginar que, invariavelmente, a cidade desperta preguiçosa. Todas as manhãs, é o homem de bigodes que empurra para cima a porta do comércio, a jovem com fones de ouvido que corre para não peder a condução, a mulher da vida e os últimos boêmios que, fora das convenções, voltam para casa. ''Quanto mais cedo, melhor, por que a gente vai ter que fechar a rua'', diz Alcione José Gonçalves, funcionário da Prefeitura de Curitiba há 22 anos. Ele se refere a melhor hora para entrar em uma galeria pluvial pelo meio da rua: tem de ser quando a cidade ainda não está inteira acordada. O ponto escolhido foi a Rua Pedro Ivo, no Centro de Curitiba, onde o Rio Ivo há muito passa sob o asfalto.
Na noite anterior a descida, chovera. A dúvida era se o nível da água não estaria muito alto. Já lá dentro, Gonçalves confirma que não. Apesar de ser a cerca de dois metros abaixo do chão, não se desce para a galeria sem apreensão. A escada de madeira já treme com o piso irregular e a força da água. Lá embaixo, esta corria na altura da canela. O cheiro é forte; de bueiro. A luminosidade é parca. Um único raio de luz, grosso, penetra pelo buraco que dá lugar a tampa metálica retirada. Em torno do buraco, ainda é possível enxergar um pouco. Alguns passos à frente, só com a ajuda das lanternas - que perdem a batalha contra o negrume da escuridão.
Para frente e para trás do ponto onde se desce - ponto este marcado pela luz entrando - só há uma escuridão infinita. No fundo da terra, não é possível se ter noção nenhuma: nem de tempo, nem de distância. É o que confirma o técnico da prefeitura. Ele conta que sempre se perde no dia quando o passa no subsolo.
Gonçalves indica o caminho: para frente, contra a correnteza, que não para nunca de surgir. Em cima, sem que isso viesse à memória, está a Pedro Ivo, no sentido à Barão do Rio Branco. Nas profundezas de Curitiba, quase não há barulho - só de água correndo, feito os rios que ainda não foram parar debaixo das cidades. A única companhia são das baratas, de todos os tamanhos, tipos, tons de coloração.
Debaixo da terra, a impressão é de filme de ficção científica, como se aquele fosse os escombros de um mundo pós-atômico, destruído por uma bomba de hidrogênio. O que sobrou do fim do mundo foram as imortais baratas, o cheiro de gás sulfídrico (liberado pela decomposição da matéria), a água nojenta que corre entre as pernas e uma noite eterna - talvez fruto da poeira da explosão, que tampa qualquer possibilidade de que os raios de sol penetrem e cheguem a superfície. Lá embaixo não há companhia, nem perspectiva de vida, nem felicidade. O subterrâneo de Curitiba - como o de qualquer outra cidade - é tão triste quanto uma morte injusta.
Alguns passos à frente (já debaixo da Rua Barão do Rio Branco), um buraco revela o entroncamento de uma outra galeria. Esta é mais antiga. Na prefeitura, ninguém sabe quando foi construída, mas imagina-se que seja uma das primeiras da cidade. Erguida com pedras e tijolos, forma um arco entre as cabeças de quem está embaixo e os pés apressados que cruzam a rua. É intrigante, amedrontadora, com um cheiro de passado e história. Dezenas de canos desembocam nesta galeria, que se liga à principal, na Rua Pedro Ivo. No chão, lodo misturado com areia, resto de lixo, canos quebrados e enferrujados, e três bueiros por onde a luz entra. Alguns passos mais, já no fim da quadra, a galeria é interrompida por uma parede.
De repente, no fundo dessa galeria pluvial com aspecto de uma masmorra medieval, um barulho semelhante a um estrondo de trovão ecoa por debaixo da terra. ''Chuva''. Dependendo do volume de água despejado dos céus, as galerias pluviais se enchem rapidamente, diz Gonçalves. É preciso sair rápido. Felizmente, era só um caminhão ou algo assim que cruzava a Rua Barão do Rio Branco. Lá fora, um sol ainda tímido se expremia entre nuvens de chumbo, anunciando o dia que apenas começara.





