A moda das sedas para enrolar cigarro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de março de 2009
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Enquanto o consumo de cigarros cai em todo mundo (no Brasil ele caiu mais de 30% nos últimos 20 anos segundo o Ministério da Saúde) curiosamente cresce o mercado de outro ítem relacionado ao fumo. É cada vez maior a oferta de papéis para enrolar cigarros, também conhecidos como rolling papers, no jargão industrial, ou "sedas", no popular. Esses produtos estão presentes nos mais variados estabelecimentos comerciais, que vão das tradicionais tabacarias até bancas de revistas, postos de gasolina, mercearias, distribuidoras de doces, casas de produtos de umbanda e muitos outros.
Há trinta anos trabalhando com esses produtos, o proprietário do Bazar Cotegipe, localizado no Mercado Municipal, Daniel Luvizotto, diz que as sedas têm uma boa saída na sua loja, onde diariamente são vendidos cerca de 10 "livretos" (como são chamadas as embalagens com 20, 30 ou 50 folhas). Ele nota que há uma crescente profissionalização desse setor, que se reflete na diversidade desses produtos nos últimos anos. Prova disso é que hoje seu estabelecimento comercializa seis marcas diferentes de papéis (algumas com vários tamanhos), para agradar os consumidores, que segundo ele têm entre 20 e 30 anos. Essa percepção derruba a imagem de que o consumidor dos cigarros manufaturados são pessoas idosas, afeitas aos velhos hábitos de antes da industrialização dos cigarros. Até mesmo pela programação visual e pelo apelo publicitário desses produtos, percebe-se que o público-alvo são os jovens, e não necessariamente tabagistas, o que se evidencia em algumas sedas que ostentam o rosto do cantor jamaicano Bob Marley (canabista contumaz) ou outras que denunciam mais diretamente a vocação de alguns rolling papers, como a "Pure Hemp" (em inglês: pura maconha), vendida em diversos pontos da cidade.
Foi por conta dessa relação que o proprietário de uma tabacaria no Mercado Municipal deixou de vender esses produtos. "Chama muita piazada", diz ele, que preferiu não ter o nome divulgado por respeito aos outros - poucos - clientes, que comprariam estes produtos com o objetivo de fumar tabaco. "Tem gente que me chama de burro, porque eu não quero ganhar dinheiro", afirma o comerciante, que reconhece que esse tipo de produto tem boa saída em outros locais. Para preservar a boa freguesia (leia-se: mais velha, com maior poder aquisitivo e que adquire produtos mais caros, como charutos, etc.) ele optou por excluir as sedas definitivamente do seu mostruário.
Essa utilidade "alternativa" dos rolling papers também causa problemas aos adeptos dos cigarros manufaturados de tabaco, como o professor universitário Felipe Alcure. Há três anos ele trocou os cigarros industrializados pelos "palheiros" (cigarros de palha) durante uma temporada que passou em um sítio. Por comodidade, hoje ele trocou palha por esses papéis, mas reconhece que é preciso "ter muita cautela" para não ser confundido com outro tipo de usuário desses produtos. "Na faculdade, se eu fizer um desses eles me pegam na hora", conta ele, referindo-se à aparência semelhante que estes cigarros tem com os famigerados "baseados", cigarros feitos de maconha.
Essa preocupação não é sem fundamento. "Acredito que a maior parte do mercado para essas sedas seja para maconha mesmo", avalia Alcure, que gosta de enrolar seu tabaco com a Smoking Blue, papel de origem espanhola feito com fibras de arroz, uma das muitas variedades encontradas hoje nas lojas de Curitiba.


