A mata causa o primeiro impacto: ''A perder de vista, a imensidade''
Roldão Arruda
Especial para a Folha
De São Paulo
O texto no qual o sociólogo Paul Arbousse Bastide narra a viagem, com o título Derrubadas e Sertões - Simples Anotações de Viagem, tem uma notável beleza literária. Mescla puras impressões e informações precisas desde as primeiras linhas, quando narra a passagem do mundo civilizado para o pioneiro: A imensidade brasileira não se entrega senão àqueles que lhe depõem aos pés a homenagem de muito tempo e um pouco de paciência. Tínhamos nós muita paciência e pouco tempo. São Paulo, Ourinhos, Jatahy: permanecemos durante a primeira parte do trajeto, num mundo de tipo europeu, jogando-nos a segunda, de sopetão, na zona de colonização, com justiça qualificada de pioneira. Muda-se de mundo em Ourinhos, com a mudança de trem. Entra-se na rota heróica. Penetra-se numa terra criada ontem e que, muitas vezes, se cria ainda hoje. Da plataforma traseira do trem, vemos fugir a terra já modelada à imagem do homem para nos enterrarmos cada vez mais numa outra ainda não modelada à imagem de ninguém.
O relato do geógrafo Pierre Mombeig, Uma Nova Terra -O Norte do Paraná, é menos literário e mais recheado de números, descrições detalhadas do relevo natural e das obras dos colonizadores. Fica-se sabendo, por exemplo, que foram abertos 134 quilômetros de estradas de terra na região, em 1934. Que Londrina era uma cidadezinha à qual a linha de trem havia acabado de chegar e com apenas 3 mil habitantes. Que a as vendas de lotes rurais, pela Companhia de Terras Norte do Paraná, duplicava, triplicava, a cada ano. A produção agrícola explodia.
Munido de uma quantidade incrível de números e de lucidez, a uma certa altura de seu relato Mombeig identifica o que lhe parece ser o principal fator do sucesso do projeto de colonização empreendido pela Companhia: era a insistência na venda de pequenos lotes de terra, quase todos com acesso a uma estrada e a um rio. Santa Mariana e Cornélio Procópio, sugere Mombeig, nunca tiveram o mesmo desenvolvimento que a região de Londrina porque o regime de distribuição de terras por lá foi calcado desde o início na grande propriedade.
Bastide e Mombeig não tentam esconder em nenhum momento do texto o quanto estão impressionados com o que vêem. A mata, densa e sólida, como um tecido de indestrutível urdidura, nas palavras de Bastide, é a causa do primeiro impacto. Adentrando-a, a sensação é a mesma de estar em alto mar: A perder de vista, a imensidade.
O segundo impacto advém do esforço do colonizador para vencer a natureza. Para falar das derrubadas, Bastide recorre o tempo todo a imagens de guerra: Enormes troncos de árvore, enegrecidos pelo fogo, ainda continuam solidamente agarrados ao solo. Não conseguem nossas imaginações afastar-se da silhueta dos campos de batalha devastados pela mais sangrenta das derrubadas.
Mombeig tenta explicar o deslumbramento, lembrando ao leitor de onde ele veio. Diz: Talvez provenha dos hábitos europeus o exagero de minha surpresa e admiração; esta onda de mocidade, este afã, surgem num contraste brutal diante de quem está acostumado a ver campos cultivados há milênios, onde cada produção tem seu lugar apropriado, e sua época certa. O geógrafo e o sociólogo também dedicam-se a descrever os vários tipos humanos que encontram na região. Ficam impressionados com o entusiasmo dos pioneiros, alemães, franceses, italianos, espanhóis, poloneses, tchecos, japoneses, baianos, mineiros, paulistas homens que encontraram, enfim, um lugar ao sol.
Destaca-se, na galeria que descrevem, o alemão Koch Weiner, que foi vice-chanceler do Reich antes de ir para Rolândia tocar uma fazenda. Ele os recebe cordialmente e mostra-lhes sobretudo a riqueza da terra. Bastide se dedica longamente a falar sobre o caboclo, o homem que se afunda na mata antes de todos, a vanguarda dos desbravadores, mas que não aparenta ter o mesmo espírito de eterno empreendedor do colono que vem atrás dele. Tem-se a impressão, ao ler o texto, que Bastide tenta explicar um personagem dos sertões de Guimarães Rosa: Alia o caboclo uma hospitalidade generosa, uma finura de linguagem e não raro de fisionomia e de espírito à paixão da solidão.
Levi-Strauss segue uma trilha diferente. O corte que faz é mais no sentido vertical. Nos dias em que esteve na região, ele se dedicou à observação do cotidiano de grupos indígenas, concentrados principalmente numa área de 36 mil alqueires, em São Jerônimo. Eram remanescentes dos kaingang, a mais antiga população do Brasil, dizimada ao longo de séculos pela malária, pelo alcoolismo e pela tuberculose. Outrora, quando ainda tinham orgulho de sua cultura, eles também foram chamados de coroado por causa do tipo de penteado que usavam, no alto da cabeça.Em seus relatos, os franceses descrevem uma terra ainda não modelada à imagem de ninguém
Reprodução de Agência EstadoA FLORESTANas palavras de Bastide, que legou à humanidade Derrubadas e Sertões - Simples Anotações de Viagem, o primeiro impacto foi a floresta densa e sólida, como um tecido de indestrutível urdidura





