São Paulo- Abrideira, água-benta (que a Igreja nos perdoe), água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aninha, branquinha, brasa, canjebrina, danada, gás, goró, malvada, marafo, mata-bicho, perigosa, pinga, purinha, três-martelos, veneno. Tudo a mesma coisa. Segundo o Dicionário Aurélio, são outras definições para a cachaça.
Mas não chame cachaça de pinga perto dos novos apreciadores da mais brasileira das bebidas, que segundo os registros históricos surgiu em meados de 1500 em São Vicente, em São Paulo, como apresenta a Ampaq (Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade, que cedeu a receita abaixo para esta matéria).
''Em Pernambuco provavelmente vão contar outra história'', diz Jorge Virgilio Amorim Brito, de 39 anos, baiano de Vitória da Conquista, que abriu o Club da Cana, no Bairro da Santa Cecília, no centro de São Paulo, no início do mês, em um local despojado, mas de prateleiras bem guarnecidas de marcas de cachaça. O Club da Cana surgiu há um ano como atacadista e agora atende o varejo, em horário comercial. ''Fornecemos 70% das marcas brasileiras de qualidade'', diz Brito. Segundo ele, os pernambucanos preferem dizer aguardente em vez de cachaça.
Na história do Brasil, a cana-de-açúcar plantada pelos portugueses no Nordeste foi a primeira riqueza da colônia.
Assim, a história de que a cachaça surgiu em São Vicente é apenas uma das teses. Como o bom chope tem suas controvérsias, a cachaça tem as suas. Fala-se em mistura de milho na fermentação. Barris de carvalho ou bálsamo. Cachaça de 'cabeça' (as primeiras a sair do alambique) dão ressaca brava?
Conta a lenda que o falecido Anísio Santiago não deixava ninguém chegar perto de seus alambiques na Fazenda Havana, em Salinas, Minas Gerais. A marca Reserva do Gerente é produzida com o maior sigilo no Espírito Santo. O fabricante conseguiu dar ''uma densidade quase licorosa'' à cachaça em barris de carvalho. Outra marca, a Matraga, do Paraná, por ser bidestilada, se colocada no freezer ganha a textura de vodca.
''Não existe nenhum outro destilado no mundo com sabor e tipos tão diversificados quanto a cachaça'', afirma Brito. ''O importante é beber com moderação e não misturar com outras bebidas.''
Cavalinho, Tatuzinho, Três Fazendas e outras velhas e fortes precursoras ganharam a companhia de outras mais leves e sofisticadas. Tem sommelier se tornando ''cachacier''. Há concurso de degustação vencido pela caninha Jamel. E a infinidade de marcas pitorescas - Xiboquinha é uma delas. Há marcas para todos os gostos e bolsos. Brito, por exemplo, gosta das cachaças envelhecidas em barris de bálsamo. ''Antes se encontrava árvores de bálsamo em Minas, que davam tons verde à cachaça envelhecida. Agora a árvore é encontrada no Pará, mas a coloração já não é a mesma. Está mais para o amarelado, como os tons produzidos por barris de carvalho.''
E pensar que cachaceiro já teve peso de palavrão. Hoje o patrão e a grã-fina tomam, mas ainda mandam o chofer comprar em Santa Cecília uma garrafa de Dona Beja, engarrafada em Araxá, que custa R$ 780 no Club da Cana - com esse dinheiro dá para tomar 1.560 doses da marca 51 a R$ 0,50, na periferia paulistana. ''A caldeira à lenha e o nosso sistema de destilação, com vapores circulantes por serpentinas e aquecimento em banho-maria tornam o produto exclusivo'', justifica o fabricante da Dona Beja em seu endereço na internet. ''Além disso, a água utilizada no sistema é reconhecidamente uma das melhores do mundo.''
Brito afirma que vendeu duas garrafas de Dona Beja em 15 dias de funcionamento. Segundo ele, um bom número. Uma dose de Seleta, de Salinas, custa R$ 2 no Bar Valadares, na Lapa, na zona oeste. Na Vila Madalena, também na zona oeste, chega fácil a R$ 5. Uma dose de Anísio Santiago é vendida a R$ 25 nos melhores restaurantes - preço de uísque 24 anos.
''O por quê do crescimento eu não sei. Talvez porque o presidente Lula beba. Ou porque os alemães gostaram. Não sei'', diz Brito. ''Alemães e japoneses gostam de tomar pura. Franceses e italianos compram para fazer caipirinha.''
A produção nacional foi de 1,3 bilhão de litros, segundo dados de 2002 do Programa Brasileiro de Desenvolvimento de Cachaça, criado em 1997 em Minas Gerais pela Associação Brasileira de Bebidas com participação do governo federal, Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio e Ciência e Tecnologia. Desse total, 14,8 milhões de litros foram exportados, principalmente para a Alemanha.
Todo sábado, o Club da Cana vai serve caipirinha para degustação e ostras frescas. Em julho, uma mostra de culinária maranhense acompanhada de... cachaça.
Outros locais também abraçaram a bebida. Em abril e maio, haverá uma degustação no restaurante O Jequitibá, na Estação do Sino, Granja Viana. Mas de onde vem o nome cachaça mesmo? Taí algo mais para se pesquisar.

mockup