Ele chegou a Londrina em 1975, aos 34 anos, cultivando paixão que data a infância em Rio Grande (RS). Hoje, aos 66, o engenheiro agrônomo aposentado Léo Pires Ferreira mantém acervo de dar inveja à família de seu ídolo. Não, não se trata de um astro do rock, nem jogador de futebol. A paixão que recheia as estantes, armários e o escritório de Léo é o trabalho do escritor Monteiro Lobato (1882-1948).
''Meu envolvimento começou muito cedo, por volta dos 8, 9 anos de idade. À época, li 'Os doze trabalhos de Hércules', que não é a primeira que recomendo, sou mais 'Reinações de Narizinho', para o início'', defende.
Aos 16 anos, ainda no interior gaúcho, Léo se enveredou pela literatura adulta de Lobato e arrematou um exemplar de ''Idéias de Jeca Tatu''. ''Ali constatei o que Lobato faz em todas as suas obras: incentiva o leitor a desenvolver o raciocínio, trabalhando o pensar'', relembra Léo.
Aposentado pela Embrapa e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em curso de pós-graduação, Léo não faz rodeios ao afirmar, diante de seu acervo: Lobato é seu hobby preferido, e o ''feliz proprietário'' de toda a coleção, que inclui 42 volumes - 19 adultos e 23 infantis.
''Comecei a comprar livros, ganhei outros livros e, como resultado, tenho a coleção completa, além de algumas obras em suas primeiras edições''. A constar: relíquias que nem a família de Lobato possui, em alguns casos.
Perguntado sobre os porquês de recomendar Lobato como leitura de cabeceira, o agrônomo argumenta, de prontidão. ''Quando falo de Lobato, meu dia ganha uma hora a mais e as 24 horas viram 25. Se há uma limitação, o escritor o move a entender as entrelinhas, é uma eterna aula''.
O ''cutucar'' de Lobato, nas palavras de Léo, é reforçado pelo baixo índice de leitura do país. Pesquisa divulgada em abril deste ano pela Câmara do Livro descobriu que o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano. Na França, por exemplo, o índice é de sete, e na Colômbia, de 2,4. Além disso, cerca de 10% das cidades do país não têm bibliotecas públicas.
''Recomendo Monteiro Lobato porque, se você buscar outros autores, cada livro trata de um assunto e traz personagens diferentes. Lobato vai além: os mesmos personagens fazem um mundo de aventuras, num mesmo local'', cita, em alusão ao Sítio do Picapau Amarelo.
Tamanha riqueza leva Léo à ''tri'' - e em muitos casos ''tetra'' - leitura. ''Sabe como é, os anos passam, preciso exercitar a cabeça e não esquecer as coisas. Com Lobato, mantenho a memória em dia''.
Partidário da filosofia de ''quem lê sabe, quem não lê, não sabe'', Léo esteve, recentemente, em Taubaté (SP), cidade-natal de Monteiro Lobato (nascido a 18 de abril de 1882).
''Estava para me aposentar pela Embrapa, e recebi, como presente de minha chefe e de meus colegas de trabalho, a ida a Taubaté. Dei de cara com aquela casa antiga, com uma jaqueira enorme, me permitiram fotografar e, de quebra, o chão pareceria ter sido feito para mim, todo fixado'', rememora o engenheiro agrônomo aposentado.
Após o banho de conhecimento, no universo regido por personagens como Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa, entre outros, Léo mantém em dia seu maior desejo: passar o conhecimento que tem adiante.
''Sempre pensei em compartilhar meu conhecimento e, certa vez, conversando com minha esposa, decidi o fazer. Como estamos diante de estatísticas assustadoras, que trazem jovens da oitava série muitas vezes não entendendo textos com mais de cinco linhas de extensão, devemos trabalhar o pensar. Não a pura e simples decoreba. É preciso pensar criticamente e de maneira lógica, inteligente. Lobato conspira a favor, nesse processo''.
Perguntado se há preço para tal expediente, Léo entrega o ''valor'', para a visita em escolas ou núcleos culturais. ''Só cobro a carona, pois não sei dirigir'', conclui, com o semblante positivo.

Serviço:
Léo Pires Ferreira faz palestras em escolas e núcleos culturais que tenham interesse em conhecer seu acervo. Contato pelo (43) 3339-0675 ou [email protected].

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