Entre tantos paradoxos existentes no País, um dos que mais chamam a atenção é a quantidade de crianças pelas ruas ou vivendo em abrigos, enquanto um grande número de casais espera pela adoção. Segundo dados da Vara da Infância e Juventude de Curitiba, no Paraná são quase 300 crianças aguardando a adoção em instituições, ao mesmo tempo em que 468 casais estão na fila aguardando um recém-nascido para adotar.
Por um lado, os candidatos a pais argumentam que é muito grande a burocracia e angústia a ser enfrentada por quem adotar pelas vias legais. Por outro as autoridades afirmam que a demora se dá, em grande parte, pelo fato de, no Brasil, imperar a cultura de adotar apenas recém-nascidos, de pele branca e de preferência do sexo feminino. O que a maioria dos casais quer é justamente o que menos existe à disposição.
O juiz da Vara da Infância e Juventude de Curitiba e presidente da Associação de Magistrados e Promotores de Justiça da Infância, Juventude e Família do Paraná, Fabian Schweitzer, diz que os casais ou as pessoas que se habilitam à adoção no País ainda não aprenderam que a adoção existe para a criança, qualquer que seja, e não para satisfazer os adultos. ''A maioria dos adotantes faz exigências demais, e esperam mais porque exigem mais. A população do Brasil não é feita de 'Barbies' como querem os pretendentes à adoção, de maneira geral.'' Segundo o juiz, há hoje 296 crianças prontas para adoção imediata no Estado, ''que ninguém quer''.
Fabian explica que a demora no processo de adoção citada pelos casais se deve, basicamente, à atitude errada que tomaram. ''Primeiro elas 'arranjam' uma criança por aí, sem saber sequer a origem, e depois querem regularizar a situação. Como os pais biológicos precisam concordar judicialmente, muitas vezes o casal que busca e adoção não os encontra mais, ou eles mudam de idéia e querem a criança de volta. Aí o processo se torna litigioso, com disputa, e vai demorar, porque ambas as partes querem defender-se até o fim.''
Segundo o promotor da Vara da Infância e da Juventude de Londrina, Tiago de Oliveira Gerardi, a possibilidade de conseguir regularizar a chamada ''adoção à brasileira'' é cada vez mais remota. ''Hoje em dia, quando a pessoa que quer adotar leva para casa a criança antes de procurar a Justiça, é feita a busca e apreensão do menor, que é entregue de volta para a mãe. Se isto não for possível, a criança é encaminhada para a primeira pessoa habilitada da fila de espera'', explica Gerardi.
De acordo com o promotor, o primeiro passo a ser dado por quem tiver a intenção de adotar uma criança tem que ser o de procurar a Vara da Infância e entrar com a habilitação para adoção. A habilitação é um cadastro onde o adotante revela as características desejadas para o seu futuro filho e prova que tem as condições mínimas de receber uma criança. Posteriormente a pessoa ou casal é submetida a avaliação psico-social, feita por psicóloga e assistente social, para então entrar para o cadastro de espera.
De acordo com o promotor, não existem crianças disponíveis para adoção atualmente em Londrina. As muitas que se encontram em abrigos, segundo Gerardi, ou são parte de processos que correm na Justiça ou protagonizam casos que o Conselho Tutelar tenta resolver, como preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Enquanto isso, 50 candidatos à adoção, cadastrados no Serviço Auxiliar da Infância e Juventude (SAI), esperam pela oportunidade de ter um filho nos braços.

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