Na vida cultural, Londrina coleciona personagens que a deixam numa posição muito acima da média entre cidades brasileiras interioranas de médio porte: Domingos Pellegrini, Arrigo Barnabé, Nitis Jacon, Maurício Arruda Mendonça, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Mário Bortolotto... Muitos desses nomes dedicaram produções a Londrina, o que ajuda a construir uma cidade paralela, simbólica, além do registro oficial da história e das mudanças cotidianas.
O cineasta Rodrigo Grota, paulista de Marília, se mudou para Londrina em 1997, para estudar Jornalismo. Ele conta que no início da década passada passou a se interessar mais pela cidade como cenário e temática. Quando começou a trabalhar com cinema, uma paixão antiga, deu vazão a esse interesse.
"Comecei a desenvolver uma relação afetiva com a cidade. Pensei: ‘como fazer um filme em Londrina que pudesse ser produzido só aqui?’. Foi aí que eu tive a ideia de algo imagético sobre a cidade, e sobre histórias inusitadas que aconteceram aqui", explica. Grota fez cinco curtas sobre Londrina. O primeiro, "Londrina em Três Movimentos", de 2004, tem trilha sonora de Arrigo Barnabé e foi a primeira obra da produtora Kinoarte. Sem diálogos ou personagens, mostra elementos da natureza, da paisagem e da arquitetura londrinenses, numa abordagem poética, sensorial.
"Quando eu fiz a pesquisa para esse filme, fui ver o quanto a cidade tinha locações interessantes. Fui descobrindo outra Londrina", diz Grota. Depois, falando com o poeta e músico londrinense Rodrigo Garcia Lopes, o cineasta se interessou por Satori Uso, poeta "criado" por Lopes e autor de haikais. O curta "Satori Uso" (2007) abriu a premiada Trilogia do Esquecimento, toda ambientada na Londrina dos anos 1950 e completada por "Booker Pittman" e "Haruo Ohara" - estes dois, baseados em histórias reais: o primeiro, sobre a passagem do jazzista americano pelo Norte do Paraná, e o segundo, sobre o mais renomado fotógrafo da história de Londrina.
Depois, Grota fez o curta "Jardim Tokio", exibido na TV e que se passa na Londrina contemporânea. Ele pensa em fazer mais obras baseadas na cidade. "Londrina, enquanto cenário e fonte de histórias, não se esgota", justifica.
O poeta mineiro Mário Romagnolli (1906-1991), que se mudou para Londrina em 1938 e aqui permaneceu até o fim da vida, dedicou vários poemas para a cidade. O escritor e jornalista José Antônio Pedriali, neto de Romagnolli e que lançou dois livros relacionados ao avô (uma coletânea de poemas e uma biografia em forma de romance), conta que algumas dessas poesias eram reflexivas, líricas, mas outras, publicadas em jornais da cidade, abordavam temas e personagens do cotidiano londrinense.
"Meu avô foi vereador duas vezes. Na primeira legislatura, ele era da oposição, a cidade tinha muitos buracos, e ele fez um poema sobre o assunto endereçado ao prefeito Hugo Cabral. Na gestão do Milton Menezes, foi votada a lei 133, que era o plano urbanístico da cidade, e havia um item nela que não permitia o fracionamento de terrenos para abrigar mais moradias. Meu avô era contrário e fez uma poesia para criticar", relata Pedriali.
O dramaturgo, escritor e poeta Maurício Arruda Mendonça não escreveu nenhuma peça com referências diretas a Londrina, mas produziu "poemas que falam de coisas de Londrina" e a coletânea de contos "Londrinenses", produzida para um jornal local entre 2007 e 2008.
"Eu escrevi contos que focalizam as fases da cidade que vão dos anos 30 até os anos 80, abrangendo mitos e histórias que mostram que Londrina não é exatamente um eldorado como alguns imaginam, mas uma cidade bastante complexa e contraditória", explica Mendonça.
Ele relata que a força cultural da cidade foi decisiva para que seguisse o rumo da dramaturgia, poesia e literatura. "Costumo dizer que a paisagem humana de Londrina é que nos formou artisticamente. Tive contato com uma geração de jovens brilhantes na poesia, na música, no teatro, no jornalismo. Na década de 80 Londrina era uma cidade muito inquieta e estimulante", explica.
Mendonça acredita que já é possível falar em uma "Londrina das artes", uma cidade construída a partir de referências na literatura, música, dramaturgia e outras manifestações.
"Isso você pode ver nos poemas de Miriam Paglia Costa, Nelson Capucho, de Nilson Monteiro, no romance ‘Meninos de Kichute’, do Márcio Américo, no ‘Terra Vermelha’, do Domingos Pellegrini, ou anteriormente nas peças de Nitis Jacon e do Proteu como ‘Bodas de Café’ e ‘ZYDrina’, ou na música de Arrigo Barnabé, Bernardo Pellegrini. Pode ver nos belíssimos filmes de Rodrigo Grota ou nas pinturas de Claudio da Costa recentemente. Mas o que é significativo é que isso resultou num conceito para Londrina que a diferencia no Estado e no País", justifica.

Leia também:

- A Beleza em cada traço!

Imagem ilustrativa da imagem A Londrina das artes
Imagem ilustrativa da imagem A Londrina das artes
Imagem ilustrativa da imagem A Londrina das artes
mockup