A imaginação transportada para o papel
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de julho de 2008
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
No bairro Campo Comprido, em Curitiba, mora uma famosa escritora de livros. Ela já recebeu 26 mil cartas de leitores de todo o Brasil, inclusive de outros países como o Japão, onde as histórias que escreve servem de material complementar nas escolas em que brasileiros estudam. Ela possui 22 livros publicados e mais três estão quase prontos. Até aí a história já impressiona, mas não acaba. A autora Adriana Gumz, que não divulga a idade de jeito nenhum, tem deficiência motora desde que nasceu e não consegue falar nem andar, além disso se movimenta com muita dificuldade.
A mãe da escritora, Lizete Gumz, alfabetizou Adriana aos 4 anos de idade. Ela colocou letras em cartolina no chão e devagar ia fazendo composições até a filha entender. Com memória rápida e grande inteligência, Adriana não enfrentou muitas dificuldades em aprender a ler. Ela também emitia gestos que fizeram com que a comunicação ficasse mais fácil. ''Quando queria comer ela encostava na boca. Quando queria comer ovo mexido ela olhava para minha testa e chacoalhava os ombros. Mas às vezes era difícil saber o que ela queria. Então aprender a ler foi uma vitória'', conta Lizete.
Através das letras Adriana conseguia formar frases. A mãe passava o dedo por cima das letras e ela movimentava a cabeça quando queria que parasse. Assim formava as palavras.
Quando a comunicação escrita foi aprimorada, Adriana começou a mostrar que possuía dom com as palavras e chegava até a fazer rimas. Após isso, a família entendeu que Adriana precisava conquistar sua independência na hora de escrever.
O avô Raimundo Gumz resolveu criar um método no computador para que ela pudesse escrever sozinha o que bem entendesse. Foram 10 tentativas até conseguir inventar uma que desse certo. Através de um teclado especial formado apenas com números, ela começou a escrever. Quando digitava o número 3 e em seguida o 8, formava a letra B. Assim por diante outras combinações eram feitas para todo o alfabeto.
O controle remoto da televisão também possui sistema semelhante criado pelo avô. Mais tarde, para aprimorar a técnica e evitar que Adriana ficasse muito cansada para apertar as teclas, Gumz criou um método para que ela digitasse com a cabeça. Assim, criou um mouse especial depois que um professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) desenvolveu um sistema de computador específico para isso. O aparelho fica no encosto da cadeira.
O gosto pelas histórias infantis surgiu desde pequena, quando a mãe lia historinhas para a filha. Um dia Adriana apontou para um livro que estava na cama. Foi aí que Lizete percebeu o gosto da escritora pela literatura para crianças. Depois disso a mãe e o avô começaram a levá-la para apresentações em circos e teatros. Tudo isso estimulou Adriana a começar a escrever. Nas brincadeiras ela escrevia muitas histórias e pedia para a mãe guardar. Quando perceberam, os escritos já acumulavam material para sete livros.
As dificuldades começaram quando Lizete não encontrou nenhuma editora interessada em lançar os livros. ''Eles diziam que preferiam pegar autores mais conhecidos. Uma editora aceitou fazer 10 mil exemplares, mas eu teria que bancar tudo e não tinha condições'', reclama.
A mãe então fazia xerox do material para vender. Foi quando Adriana venceu um concurso nacional de contos e ganhou um prêmio de US$ 5 mil. Com este dinheiro ela conseguiu fazer seus livros na gráfica. Desde lá a venda dos exemplares paga a produção dos próximos. A venda dos livros é feita nas palestras que Lizete dá em colégios, empresas e universidades sobre a vida de Adriana. Os interessados também podem comprar diretamente com ela.
A mãe de Adriana acomeçou a escrever uma biografia sobre a filha e vai contar toda a trajetória da escritora, desde o nascimento. ''Farei isso para poder ajudar as pessoas''. Na produção do livros, Adriana gosta de participar de todo o processo e também aprova as ilustrações das histórias. ''Não pensei que ela seria uma escritora quando eu comecei o processo de alfabetização. Hoje ela consegue dar exemplo pra muita gente'', conta Lizete.
Adriana demora seis meses para escrever um livro. São aproximadamente quatro linhas que escreve durante uma tarde toda. Segundo a própria escritora respondeu através do programa do computador, para criar as histórias ela se inspira na família, nas músicas que escuta, no que vê na televisão e na sua própria imaginação. Adriana é fã de filmes de comédia e programas sobre viagens. Seus livros abordam temas como natureza, higiene e animais, sempre usando a fantasia para mandar uma mensagem aos leitores.
''A minha filha não se considera deficiente. Para ela, deficiente é o drogado que não procura ajuda'', explica a mãe. Casos de pessoas que foram conhecer Adriana para agradecer pelas mensagens que seus livros transmitem não são poucas. Um dia ela recebeu a visita de um homem que dizia ter largado as drogas após conhecer a história dela. Lizete conta que Adriana sempre escreve sobre o dom de cada um. ''Ela acha que todos viemos no mundo para sermos vencedores. Todo mundo tem um dom, basta procurarmos saber qual é''. O sonho da escritora era ser professora. Com os livros, indiretamente, ela ensina muita gente.
Adriana mandou uma mensagem aos leitores da FOLHA: ''Nós devemos lutar sempre por nossos sonhos. Devemos ter otimismo, força, coragem e fé em Deus. Com isso você irá vencer''.
SERVIÇO
Interessados em adquirir os livros de Adriana Gumz ou obter mais informações sobre as palestras podem ligar para (41) 3267-4467.


