A entrevista está quase acabando. Pouco antes da habitual despedida e agradecimentos pela atenção, o repórter pergunta qual é a característica principal do povo árabe, a qualidade que faz com que indivíduos diferentes - e de nações diferentes - se agrupem em uma população única. Com uma batida no ombro - um quase abraço -, Jamil Ibrahim Iskandar responde: ‘‘A hospitalidade...’’. Pouco depois repete, divagando, como se tivesse encontrado a fórmula de uma equação que há muito procurava. ‘‘A hospitalidade!’’
  Se há mais de 100 anos o Brasil recebeu os primeiros imigrantes árabes em suas terras, hoje a hospitalidade árabe faz com que estes recebam os brasileiros de braços abertos, seja em suas casas, comunidades ou restaurantes. A troca entre as duas culturas produziu um híbrido de dois povos que hoje convivem em paz, absorvendo experiências um do outro.
  ‘‘Com a imigração árabe, o Brasil ganhou um acréscimo cultural muito grande. O ganho foi na academia, na culinária, em novos valores. Enquanto isso, os árabes aprenderam com os brasileiros outra forma de se viver. Juntou-se uma cultural oriental e uma ocidental em um País que soube conviver com as diferenças’’, compara Iskandar, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná.
  Ele mesmo é um bom representante dessa mistura. Nascido em Beirute, no Líbano, veio ainda bebê para o Brasil. Seus cinco irmãos são nascido no Brasil. Sua mulher é descendente de italianos. Já seus filhos são uma nova geração de árabes que formam uma unidade muito grande.
  Hoje, o mundo árabe é forma do por 22 nações que somam mais de 200 milhões de habitantes. No Brasil, diz Iskandar, são cerca de 18 milhões de imigrantes e descendentes. Desse total, 15 milhões são libaneses.
O Líbano, devido a uma série de conflitos e uma guerra civil que atingiu o País na década de 1970, foi o principal ‘‘exportador’’ de árabes
para o Brasil.
  No Paraná, a tendência é a mesma. Aliás, uma das principais colônias árabes do Brasil está no Estado. Foz do Iguaçu tem hoje cerca de 15 mil árabes (90% deles, libaneses). Para Iskandar, a concentração tem uma explicação. ‘‘A região de fronteiras é muito interessante para o comércio, principal atividade desenvolvida pelos árabes no Brasil’’, diz. Foz só perde para São Paulo no número de imigrantes.
  Em Curitiba, a colônia também é forte. Jamil Iskandar estima que sejam mais de 5 mil descendentes. Além da Sociedade Benificente, os árabes curitibanos contam com uma mesquita, uma escola e monumentos que recordam a imigração. Isto para os árabes muçulmanos. Há também outras igrejas para os árabes cristãos. Estes são, em sua maioria, vindos da Síria e adeptos do cristianismo ortodoxo.
  Iskindar lembra que já eram encontrados árabes no Paraná nos últimos 30 anos do século XIX. Mas a chamada ‘‘migração massiva’’ só aconteceu depois de 1945. Fato curioso no processo é que os primeiros imigrantes não tinham idéia para qual país realmente embarcavam. Era comum dizer: ‘‘Vamos para a América!’’. Acabavam desembarcando no Brasil. Ainda bem.

‘Para os brasileiros, não somos árabes, somos seres humanos.’ Assim resume um imigrante libanês o acolhimento que recebeu no Brasil. Talvez por isso puderam tão livremente vivenciar sua cultura e suas crenças, sob as bençãos de uma nação construída em grande parte pela força dos estrangeiros

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