A hora do Plano B
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 2009
Omar Godoy<BR> Equipe da Folha 
Curitiba Karla Smolareck, 24 anos, engrossa uma estatística cruel: a dos brasileiros que não conseguem uma colocação no mercado de trabalho para o qual se prepararam. Ela concluiu o curso de Jornalismo em 2007, e de lá para cá enfrentou diversas entrevistas de emprego - sempre sem sucesso. Hoje, é auxiliar administrativa do espaço infantil de um shopping center.
Instalada num escritório, Karla faz pagamentos e resolve questões burocráticas. Se pudesse escolher, estaria atuando nos bastidores da notícia. Gosto da produção de tevê, da redação de jornal. Mas faria qualquer outra coisa, só para trabalhar na minha área, diz.
Quando ainda estava na faculdade, ela fez dois anos de estágio. Pensou que seria efetivada, o que não aconteceu. Iniciou, então, a fatídica maratona de distribuir currículos e participar de processos de seleção. Acho que tudo funciona por indicação. A maioria dos meus colegas de curso não está trabalhando, e os que estão tinham conhecidos nas redações e assessorias de imprensa, diz.
Cláudio Mello, 42, também se queixa da chamada cultura do QI (Quem Indicou). Reparador de automóveis numa montadora multinacional, ele se matriculou no curso de Administração de Empresas/Comércio Exterior com um projeto em mente: trocar o chão de fábrica pelo setor de gestão. Até agora, nada aconteceu. E lá se vão dois anos.
O importante é ter o QI alto e estar na hora certa, no lugar certo, diz o operário, que também estudou inglês para se diferenciar dos demais. Tenho orgulho da minha profissão, porque com ela consegui comprar tudo o que tenho. Mas, no fundo, fico um pouco chateado por ter estudado tanto e não ser reconhecido, completa.
Para o mecânico Dayson Bilhan, 25, o importante é ter um plano B. Formado em Artes Visuais, ele logo percebeu que seu campo de atuação era limitado. Como não queria virar professor, seguiu trabalhando na oficina da família, à beira da BR 116.
A carreira artística, no entanto, não foi abandonada. Considero a pintura meu segundo trabalho, e não um hobby, afirma Dayson, que já fez uma exposição individual e até negociou alguns quadros. A palavra frustração, portanto, não faz parte de seu dicionário. Atualmente, a pessoa tem de ser versátil para sobreviver, ensina.
Caso parecido é o do taxista Rodrigo Biz, 30. Depois de passar parte de sua juventude batalhando e juntando dinheiro no Japão, ele retornou a Curitiba disposto a estudar Turismo. Pagou a faculdade dirigindo o táxi do pai, e gostou tanto da atividade que resolveu unir as pontas: sua monografia de conclusão de curso foi um programa de capacitação para motoristas.
Por mais que as duas áreas tenham alguma conexão, ninguém se forma em Turismo para trabalhar na praça. Mas, a exemplo de Dayson, Rodrigo previu um futuro difícil no seu campo de formação. Comprou um táxi e hoje se considera bem resolvido profissionalmente. Não conseguiria uma colocação mais lucrativa do que essa. Além disso, adoro o que faço, garante.
Detalhe: o taxista pretende, em breve, fazer outra faculdade, dessa vez de Direito. Educação nunca é demais. Mesmo assim, nunca vou largar o carro, que é o meu escritório, brinca.
Por essas e outras, a jornalista Karla também se engajou em outro projeto. Está fazendo um curso técnico de protése dentária, para ingressar no campo de trabalho do resto da família (formada, em sua maioria, por dentistas e protéticos). Não desisti do jornalismo, mas me acalmei e parei um pouco de procurar. Digamos que me conformei em partes, conclui.


