Hora e meia de papo com Everaldo Alves Capucho, de 82 anos, são bom começo para matar uma curiosidade que instiga dez de cada dez pessoas que conhecem Londrina e se encantam com a história de uma metrópole que brotou no meio da exuberante Mata Atlântica: afinal, como era trombar com árvores centenárias que cinco homens não conseguiam abraçar; como eram os rios, córregos e ribeirões de uma região onde nem índios havia; que sons e cheiros e visões proporcionava a vida, ali, naquela época pioneira, estartada em agosto de 1929, com a chegada dos ingleses?
Junto a uma velha mesa de fórmica na cozinha da casa dele, numa das estreitas ruas do conjunto Luís de Sá, zona norte, o contador, professor ginasial, serventuário da justiça e comerciante (hoje apicultor) Everaldo Capucho faz relatos lúcidos e pormenorizados da história ambiental de Londrina. Filho do Coronel Capucho, fundador, primeiro prefeito e primeiro delegado de Santo Antônio da Platina, no Norte Velho, o pai de Everaldo chegou com a família em 1934 - ano de emancipação do município - para abrir um rancho a 5 km da margem esquerda do rio Tibagi.
Everaldo tinha cinco anos. E guarda muitas lembranças da época de moleque. Viviam isolados, longe de tudo. Criavam porcos e galinhas, mas não tinham para quem vender - sorte das onças, que se fartavam. Plantavam arroz, feijão, milho, batata, mandioca, para consumo. Compravam apenas sal - nem açúcar (que vinha do melado de cana), nem querosene (acendiam lamparinas com gordura animal).

- Comíamos também palmito e alguma verdura plantada pela mãe. Carne de caça tinha à vontade: cateto, queixada, paca, veado. Salgávamos a carne. O couro vendíamos para um comprador em Jatahy. Boa de tiro, minha mãe matava muita jacutinga que bebia água em poça d’água perto de casa.

Everaldo viu o pai em cima de um toco de árvore com o cachorro da família entre as pernas e uma carabina de 13 tiros na mão enfrentando um bando de queixadas que queriam dialogar com o pobre cãozinho, depois de já terem estraçalhado a cadela mãe dele. Um dia, ao levar comida para o pai na roça de arroz, topou com uma onça parda deitada na trilha. Teve de mudar o caminho.
Do Ribeirão dos Apertados, cuja água era transparente, Capucho guarda a lembrança de pescarias do pai, que represava um trecho com troncos de palmito e, depois, como quem cata folhas do chão, enchia balaios com dourados, piracanjubas e curimbas amarelos, que eram salgados e dispostos em varal de cipó para secar. Como o pai tinha arquitetado aquela armadilha?

- A necessidade ensina o sapo a pular, rapaz.

A fartura proporcionada pela fauna e flora daquela época gerava efeitos colaterais. Colhia-se jabuticabas levando o pé inteiro arrastado para casa. Derrubava-se paineiras para pegar paina. Colocava-se fogo em paus d’alho - árvores que chegam a 30 metros de altura - para deles retirar cinza com a qual filtrava-se água para fazer sabão.

- Acho que é por isso que sou ‘meio’ ecológico. Vi muito desperdício naquela época.

Da zona rural da incipiente Londrina Everaldo mudou-se para Paranavaí, onde reflorestou muitas áreas para proteção de nascentes. Chegou a comprar uma ilha de 70 alqueires no rio Paraná, na altura de Querência do Norte, onde criou porcos e cabritos e plantou banana sem, contudo, incomodar os macacos e outros habitantes nativos.
Adquiriu uma propriedade em Ventania, onde descobriu uma paixão: a apicultura. Lá, ensinou muita gente a criar abelhas. Voltou a Londrina, abriu um açougue no bairro onde mora até hoje, mas nunca mais largou as abelhas. Recentemente lançou um livro para curiosos e interessados na apicultura. Voluntário, socorre quem o convoca para retirar enxames de lugares inconvenientes. Sem usar veneno, pega os enxames, leva para um apiário pequeno montado no sítio de um amigo no caminho para a Warta e, depois da "reunião", leva-os para apiários maiores na região de Sapopema, onde as bichinhas vão cumprir a relevante tarefa da polinização.

- Tive quatro filhos, plantei muita árvore e, agora, escrevi um livro. Acho que estou com a missão cumprida.

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