Andar pelas ruas de Curitiba pode ser uma interessante aula de história que, ao invés de livros e quadros negros, oferecem monumentos e mobiliários que compõem o espaço urbano como fontes de conhecimento. Isso significa que qualquer pessoa que se disponha a perceber a cidade, reparando melhor em seus tantos símbolos, espalhados por praças, ruas, parques e outros logradouros públicos, aprenderá um pouco mais sobre as tradições e fatos que fizeram a história da cidade, do Estado e até do País.
São painéis, placas, esculturas, monumentos comemorativos, estátuas e até mesmo repuxos e chafarizes, que contam um pouco da história da cidade. A praça Zacarias, por exemplo, foi inaugurada em 1871 com o nome Chafariz, e representa o início da água encanada na cidade, o que é resgatado através de suas fontes e espelhos d'água. É ali que está um dos mais antigos chafarizes da cidade.
A praça Osório, uma das mais arborizadas na Capital, guarda um detalhe interessante da Curitiba de anos atrás. Seu repuxo ostenta estátuas de sereias trazidas da França, assim como é francês também seu relógio, que fica voltado para a Rua XV. A mesma praça conserva a história do nosso passado literário, contado por meio de vários bustos de poetas paranaenses que estão ali, entre eles os simbolistas Emiliano Perneta, Emílio de Menezes e Domingos Nascimento, todos inaugurados na década de 20.
A historiadora Aparecida Vaz da Silva Bahls, da Coordenação de Pesquisa da Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) desconhece o porquê da praça ter se tornado uma referência à cultura, mas acredita que ela foi escolhida por ser uma das mais frequentadas pela população. ''A praça era bastante frequentada. Ela tinha um coreto onde as orquestras se apresentavam, e as pessoas faziam footing na rua XV, terminando sempre na praça'', lembra.
Entre os monumentos existentes, as estátuas têm destaque especial. Mas apesar de importante - e de suas proporções normalmente grandes - nem sempre são percebidas pela população. Quer fazer um teste? Bom, todo mundo sabe que a estátua do grande jurista e orador Rui Barbosa fica na praça Rui Barbosa, certo? Errado.
A estátua de Rui Barbosa está na praça Santos Andrade, onde foi inaugurada em 1937, em uma homenagem dos alunos do curso de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estudavam no prédio histórico localizado ali. O nome da praça, aliás, é uma homenagem ao parnanguara José Pereira dos Santos Andrade, eleito em 1896 Presidente do Estado do Paraná - nome dado ao governador naquela época. E não há nenhuma estátua de Santos Andrade ali.
População não
conhece homenageados
O estudante de Direito Luciano Coelho, de 20 anos, é um exemplo dessa falta de memória da maioria da população. ''Eu gosto dos monumentos. Sei que tem uma estátua na praça do Batel, na praça Tiradentes, mas não lembro quais são. Lembro das maiores, mais marcantes, como o leão com asas em um chafariz de Santa Felicidade'', diz.
O casal Adélia Parron Alvarez, de 76 anos, e Antonio Geara, de 86, que mora perto da praça Tiradentes, lembra que o local abriga vários monumentos. ''Tem uma estátua de Tiradentes, outra de Getúlio Vargas e uma de um marechal, que não lembro o nome'', diz Adélia, que também não lembra quem foi Benjamin Constant, retratado em um enorme monumento à República, existente na praça. ''Getúlio foi o maior presidente da República, e Manoel Ribas o melhor governador do Paraná'', complementa o marido.
A gari Nadazir de Souza da Silva, que trabalha há quatro anos na limpeza da mesma praça, conta que já parou para ler as placas embaixo das estátuas. ''Getúlio foi um homem importante, deu um tiro na cabeça e Tiradentes foi enforcado. Eu já li, vi, mas a gente acaba esquecendo'', diz.
Estátuas são
alvo de vândalos
Além de passarem despercebidas, as estátuas são também alvo constante de vandalismo, problema que acaba saindo caro aos cofres públicos. ''O maior problema é a pichação e pessoas que urinam nas estátuas'', diz Denise Zanini, do Setor de Conservação da Diretoria de Patrimônio Cultural da FCC. Outro problema é o furto, principalmente de placas e letras de bronze.
Como tratam-se de obras de arte, a limpeza requer cuidados especiais. A responsabilidade pela conservação dos monumentos é da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, mas sempre que é necessário algum tipo de intervenção, o trabalho é feito sob orientação dos técnicos da Diretoria de Patrimônio Cultural da FCC.
Em geral, as estátuas são feitas em bronze, ferro, mármore, granito ou mesmo concreto. O trabalho de limpeza exige o uso de bisturi, cotonete e solvente especial para restauração, de modo a não danificá-las. No ano passado, a prefeitura fez a limpeza dos monumentos da praça 19 de Dezembro. O trabalho foi feito com ajuda de um solvente à base de acetona, que derrete a pichação. O produto, biodegradável e pouco abrasivo, é misturado na água e aplicado em jatos nos monumentos, após a limpeza com cerdas plásticas.
''O problema é a conservação. Na praça 19 de Dezembro foram duas semanas de trabalho, e no dia seguinte já estava pichado de novo'', conta Eliane Marcassa, também da Diretoria de Patrimônio Cultural da FCC.

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