A guerra em busca da informação
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de maio de 2009
Sérgio Ranalli<br> Editor de Fotografia 
O estrondo de uma bomba estremece as paredes, as luzes se apagam, a fumaça toma conta do ambiente, os coletes e capacetes à prova de bala negligenciados repousam tranquilos em cima de mesas e cadeiras. Tiros de fuzil, calibre 762, são disparados às centenas do lado de fora. Para um civil, desacostumado com o uso da parafernália militar, vestir o colete e colocar o capacete no escuro, sob tensão, parece missão impossível, qualquer retardo pode ser fatal.
Demorou quatro minutos para que todos os 19 jornalistas estivessem em condições de ser evacuados para um bunker (unidade de defesa ostensiva, geralmente construído em betão); os destroços do ataque dificultavam a passagem, feridos agarravam os pés e imploravam por socorro. Já do lado de fora da edificação o cenário era de horror, mortos tinham seus membros dilacerados, os feridos buscavam ajuda em meio ao caos, os tiros continuavam, os focos de incêndio se multiplicavam, bem como o risco de sermos atingidos por novos fogos de artilharia. A morte estava mais próxima para os profissionais da informação que os 50 metros que os levariam até o bunker.
O texto acima seria trágico se não fosse apenas uma simulação realizada no 2º Curso de Preparação para Jornalistas em Áreas de Conflito realizado pelo Exército Brasileiro, por meio do Centro de Instrução de Operações de Paz (CiOpPaz), e apoiada pela ONU, no Rio de Janeiro .
A FOLHA foi o único órgão de imprensa paranaense que participou do treinamento, para o qual foram convidados 19 jornalistas brasileiros. No programa, instruções sobre minas terrestres, armas de artilharia e infantaria, primeiros socorros, negociação, comportamento de reféns, progressão em terreno batido por fogos, além da troca de experiências com profissionais que já cobriram os principais conflitos da atualidade.
Exercer a profissão de jornalista é uma atividade de risco: no ano passado 41 jornalistas foram mortos no mundo e 125 permaneciam presos até dezembro de 2008. Estima-se que 33% morreram em cobertura de guerra. O restante das mortes ocorre principalmente em coberturas políticas (26,4%), reportagens sobre corrupção (20,3%) e crimes e tráfico de drogas (13,2%). A maior parte das mortes aconteceu por meio de assassinatos (72,1%), nos quais foram utilizadas armas de pequenos calibres em 53,3% dos casos.
No entanto, o leitor deve estar pensando que a má sorte dos profissionais da informação está restrita a países em guerra ou nações varridas por conflitos étnicos e religiosos. É estarrecedor tomar consciência que o Brasil ocupa a desconfortável 13ªposição entre os países nos quais jornalistas morrem no exercício da profissão, com 16 mortes, número igual a Ruanda, Serra Leoa e Tajiquistão.
Os conhecimentos obtidos nos cinco dias de treinamento servem para a guerra e cobertura jornalística de missões de paz, mas também permitem enfrentar os perigos diários em nosso país. É fato que no Rio de Janeiro equipes de reportagem só entram em áreas de risco com coletes à prova de bala e carros blindados. E não é para menos: é difícil encontrar jornalistas cariocas que fazem coberturas policiais que já não tenham presenciado e enfrentado tiroteios. Para quem acha exagero o curso oferecido pelo Exército, vale lembrar que até em Londrina já houve situações parecidas, com colegas de profissão sendo alvo de armas de fogo.


