A grande redoma
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Enquanto se comemora os 25 anos do Shopping Mueller, o primeiro de Curitiba, outros três grandes empreendimentos do gênero são esperados na cidade. Jardim Botânico Mall, Patteo Batel e Parque Jockey chegam em breve para engrossar a lista de mais de 20 centros de compra locais. Não é a toa que já se chama a outrora ''capital ecológica'' de ''capital dos shoppings''.
Mas o fenômeno é mais forte do que parece. Basta olhar ao redor para perceber que o conceito e a estética dos templos de consumo estão em todos os lugares. Da Arena da Baixada às faculdades, do Aeroporto aos hospitais.
Ambiente climatizado, limpeza extrema, praça de alimentação, estacionamento coberto, escada rolante, monitoramento por câmeras... De uma forma ou de outra, os espaços públicos cada vez mais se apropriam do modelo dos shoppings - e acabam ficando todos muito parecidos. É a ''shoppingzação'' de Curitiba, na falta de um termo melhor.
''Pessoalmente, acho essa padronização de extremo mau gosto'', opina a historiadora Tatiana Marchette, organizadora da exposição fotográfica sobre os 25 anos do Mueller (veja quadro ao lado). ''As pessoas ficam em espaços muito delimitados, não se anda tanto pelas ruas. A consequência é que a gente perde um pouco da referência da cidade''.
Tatiana ainda lembra que, até pouco tempo, ''fazer um lanche no Centro'' era um programa comum entre as famílias curitibanas. E apesar de ver um lado positivo na descentralização dos serviços, lamenta o rompimento da população com o que chama de ''cordão umbilical'' de Curitiba.
Para o professor Orlando Ribeiro, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo, falta qualidade de vida à cidade. Sem conforto e segurança, ele explica, migra-se para lugares fechados, que por sua vez deixam de dialogar com o entorno. ''Os próprios condomínios são shoppings para morar'', compara.
Ribeiro acredita se tratar de um caminho sem volta, a não ser que haja um esforço coletivo para revitalizar os espaços públicos. O problema é que mesmo itens básicos, como as praças, perderam sua vocação socializante. ''As nossas, por exemplo, são meros terminais rodoviários'', afirma.
O fato é que há demanda de sobra por shoppings e afins. ''É uma característica do Brasil inteiro, mas que se acentua em Curitiba'', afirma Marcos Kahtalian, consultor e professor de Marketing da Unifae. Para ele, o clima frio, o grande número de carros e o alto padrão de vida de boa parcela da população são alguns dos fatores preponderantes para a proliferação da ''cultura shopping'' por estas bandas.
De acordo com Kahtalian, o modelo se tornou hegemônico por oferecer três benefícios centrais - segurança, conforto e conveniência. ''Como existe uma escassez de tempo, as pessoas são atraídas por locais que concentram o maior número de serviços'', diz, sobre o terceiro item.
Em outros países, ele conta, a demanda ''cansou'' dessa centralização. ''O consumidor percebeu que era tudo muito similar, e passou a valorizar novamente o comércio de rua, as pequenas galerias. Locais mais charmosos e interessantes do ponto de vista da experiência pessoal'', afirma.
O professor Ribeiro concorda. ''Já viu alguém viajar para fora do país e tirar fotos dentro de shoppings? O diferencial dessas cidades é justamente oferecer qualidade nos espaços públicos, coisa que não existe por aqui'', conclui.
Curitiba está deixando de ser a capital ecológica para se tornar a capital dos shoppings. E o fenômeno da shoppingzação é cada vez mais forte. Conceitos e estética dos templos do consumo multiplicaram-se e atingem dos campos de futebol às faculdades, do aeroporto aos hospitais


