Para os ''leigos'', a Estrada da Graciosa começa no famoso portal da BR-116. Não é verdade. O Caminho da Graciosa, que durante muito tempo foi a principal ligação de Curitiba com o Litoral do Paraná, na verdade tem um de seus extremos no coração da capital paranaense, e a estrada propriamente dita tem um trecho considerado ''perdido'' de aproximadamente 40 quilômetros na Região Metropolitana.
Segundo informações da Secretaria Municipal de Turismo de Quatro Barras, as evidências históricas apontam a existência de uma picada indígena que ligava o Litoral do Paraná até o planalto curitibano no século XV, quando índios tupi e guarani habitavam o sul do Brasil. Com a chegada dos bandeirantes, a trilha ficou conhecida.
Ainda de acordo com a secretaria, em 1721 o ouvidor Raphael Pires Pardinho ordenou a abertura do caminho. Mais de 100 anos depois, em agosto de 1854, o presidente da recém criada Província do Paraná (emancipada no ano anterior), Zacarias de Góes Vasconcelos, deu a ordem para a construção da Estrada da Graciosa, obra que foi concluída em 1876. A intenção era construir uma estrada de rodagem, e dos caminhos existentes na época, Itupava e Graciosa, o segundo se mostrou mais viável.
A Secretaria de Turismo salienta que o conhecido Portal da Graciosa foi construído em homenagem às Missões Jesuíticas no Paraná e que o trecho que vai do portal, na BR-116, até o alto da serra é considerado a ''falsa'' Estrada da Graciosa, pois não tem relação com o traçado original. A verdadeira Estrada da Graciosa começa em Antonina, passa por São João da Graciosa, em Morretes, sobe a Serra do Mar, corta Quatro Barras de Leste a Oeste, no rio Canguiri separa os municípios de Colombo e Pinhais e chega ao trevo do Atuba. O caminho então adentra Curitiba e termina o traçado no Centro Histórico, no Largo da Ordem.
Hoje, a Graciosa ''perdida'' pode ser dividida em dois blocos. O pedaço na divisa entre Colombo e Pinhais reflete a prosperidade econômica das últimas décadas na Região Metropolitana de Curitiba, com condomínios residenciais luxuosos, pousadas, sedes campestres e chácaras. No trecho em Quatro Barras, também com muitas chácaras, está o segundo bloco, cheio de marcos históricos, como os pontos onde D.Pedro II e a família Imperial pararam para pernoitar e descansar, igrejas antigas e referências à cultura popular.
Uma delas é o Oratório do Anjo da Guarda, construído em 1957 e restaurado recentemente. O oratório, na verdade, foi edificado a partir de um altar que existia na região desde a construção da estrada. ''Pelo que contam, o pessoal que abriu a estrada sofria com bichos, bandidos e acidentes. Eles fizeram um altar para pedir proteção ao Anjo da Guarda, e então surgiu esse culto'', explica José Klosivski, caseiro de uma chácara na região.
Ele explica que até 1996, quando se mudou para a região de Curitiba, não havia ouvido falar da Estrada da Graciosa perdida. ''Por aqui tem muita gente que nasceu e se criou na região, então sabem das histórias. A estrada é muito tranquila, só passam turistas e pessoas que atravessam de uma região para outra. Também passam muitos ciclistas e de vez em quando tem aquele rally'', diz o caseiro.
Sulimar Maas, dono de um bar na localidade de Campininha, à margem da Estrada da Graciosa, conta que mudou-se para a região há dois anos, pois queria sair do Centro de Quatro Barras. ''Aqui é mais tranquilo'', justifica. ''Passa pouca gente pela estrada. É mais turista. Caminhão, tem pouco. E tem muito chacreiro. A região virou tudo chácara de rico''.
Maas argumenta que, ao contrário do que costuma ser dito, o movimento no trecho ''perdido'' da Estrada da Graciosa começou a cair antes da construção da BR-277, hoje a principal ligação de Curitiba com as praias paranaenses. ''Os motoristas pararam de usar esse pedaço quando foi aberta a BR-116, e quem pegava a Graciosa começou a ir por cima, onde está o portal'', explica.
O comerciante reclama da poeira da estrada de cascalho e tem pouca esperança de que o trecho seja pavimentado. ''Se abrirem o pedágio na BR-116, perto do portal, talvez venha o asfalto, porque aqui vai ser uma alternativa. Mas se fizerem mesmo o pedágio a R$ 1,40, o preço da licitação, ninguém vai querer desviar por aqui. Só quem quiser conhecer mesmo'', aponta.

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