A folia multiplicada por 3 milhões. Fora os turistas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de fevereiro de 1998
Marco Merlin Especial para a Folha 
DivulgaçãoMisturaEm Olinda, não há como fugir e o negócio é subir e descer ladeira acompanhando os homens gigantes que se misturam ao povoChegou a hora de pintar a cara, vestir a fantasia, munir-se de confetes e serpentinas, mascarar-se e colorir a alma. Os primeiros acordes das orquestras de metais foram ouvidos já em dezembro. É Carnaval em Pernambuco.
A euforia explode em cada esquina e invade o corpo daqueles que são ou querem ser foliões. Na verdade, nenhum paramento é necessário. Não precisa fantasia, nem máscara ou outra coisa. Qualquer roupa serve, basta simplesmente deixar de lado as tristezas a nós impostas e cair na folia, sem hora para acabar.
Não tem escola de samba. Nesta festa em que todas as classes sociais se misturam e brincam pelas ruas de Olinda e Recife, as grandes atrações são as troças, os blocos, organizados ou não, os maracatus e os trios elétricos, que desfilam continuamente sem cessar e juntos fazem, nas duas cidades, O Maior Carnaval do Mundo.
Um carnaval de raízes genuinamente pernambucanas, feito por todos e para todos, onde você é o convidado mais que especial, para que possa conhecer e viver a riqueza das manifestações folclóricas e a hospitalidade dessa gente. Só é preciso preparo físico. Esteja preparado para suar. Pelas ruas, você vai encontrar um mar de gente, numa dança contagiante e de passo frenético, que se tornou a marca registrada de Pernambuco.
ColoridoMascarados correm pelas ruas nas animadas troças, dando colorido extraordinário à festa popular
É o Frevo. Seu nome surgiu do verbo ferver! Nada mais apropriado, pois sintetiza à perfeição a coreografia e o espírito da dança. Frevo-canção, frevo de bloco, frevo de rua, seja qual for, nele está a alma e a carne do folião pernambucano.
Gente e sonsNem só o frevo faz a festa. Pois tem o maracatu, seu maior concorrente, que surge numa ruazinha calma, relembrando a corte das antigas nações africanas. Seus reis, rainhas e vassalos desfilam ao som grave dos bombos, empunhado estandartes dourados trabalhados à mão. Mais alguns passos, pode-se encontrar os caboclinhos, que revivem em suas danças a cultura e os costumes dos índios brasileiros.
Seguindo em sua folia, em alguma esquina você pode ser abordado por uma La ursa, que nada mais é que um sujeito vestido de urso capturado por aquele que a quem corneou, cantando o refrão la ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro. Você vai topar também com algum Bloco-do-eu-sozinho ou Nóis Sofre Mais Nóis Goza.
Do jeito que for, o importante é brincar. Vale até relembrar os velhos carnavais. Quem se encarrega disso é o velho Bloco da Saudade, com suas violas, banjos e bandolins, que levam às ruas do Recife e de Olinda a memória de antigas mas sempre belas músicas carnavalescas, como as de Capiba, grande e saudoso compositor pernambucano.
Toda essa festa começa mesmo hoje, no primeiro minuto da madrugada, com um hino que tem como refrão Vem pessoal, Vem moçada, Carnaval começa no Galo da Madrugada. O Galo da Madrugada é o maior clube de máscaras de Pernambuco e está consagrado no Guiness Book como O Maior Clube Carnavalesco do Mundo. Ele avisa aos foliões que já é hora de pular.
DivulgaçãoO Galo da Madrugada é o maior bloco do mundo, reunindo mais de 1 milhão de pessoas que atendem ao seu canto de glória
O Galo faz sua concentração em frente à sede do clube, no bairro de São José. Seu desfile percorre as principais ruas e avenidas do centro do Recife. Os milhares de foliões que ouvem e seguem o bloco provam e comprovam que é mesmo o maior bloco de Carnaval do planeta Terra. É incalculável, é quase inacreditável o tamanho da multidão que o segue. Coisa para mais de um milhão de pessoas. Um terço da população normal da cidade.
Depois que o Galo passa o negócio é esquecer o relógio, o calendário e a vida, porque ninguém consegue ficar parado e nada mais tem hora nem data para acontecer. Mas se você não quiser se meter no meio dessa avalanche, tem muito Carnaval por outros lados da cidade. Recife é repleta de blocos e troças à espera de quem quiser acompanhar. Pode ir atrás do bloco Nóis Sofre Mais Nóis Goza, das Traquinas, do Furacão, das Batutas de São José. Para onde se virar, tem carnaval do bom. Até dentro dágua: no Rio Capibaribe, barcos e jangadas se enchem de foliões, batucadas e cantorias.
Alegria, alegria, muita alegria é a principal e única exigência deste Carnaval tipicamente nordestino e brasileiro. Na Zona Sul, a alegria cobre o mar. Um trecho da Avenida Boa Viagem, de quatro quilômetros, foi apelidado de Corredor da Folia. É por onde passam os trios elétricos.
Frevo ou Axé Music? Qualquer que seja a preferência, não vai faltar alternativa, seja atrás dos trios elétricos - como a Turma do Pinguim e o Arlindo Cross - ou de blocos, como o Clube do Limão, Rapazes Inocentes, conhecidos como Cri, ou o bloco da Parceria, organizado por uma grande rede de supermercados. Também tem o Bloco do Bandepe, o Birinaite Classe A etc. Enfim, você só vai parar para recuperar o fôlego, e que seja rápido, pois a brincadeira só está começando.


