A FOLHA NA SELVA - Oficiais do Exército enfrentam a morte na Amazônia
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sábado, 28 de junho de 2008
Wilhan Santin<br>Enviado a Manaus 
Selva Amazônica. Dentro da mata, uma equipe do Exército tem pressa para subir um socavão e chegar logo à estrada de terra que corta a floresta. O que era um treinamento de resgate de feridos virou situação real. Um aspirante a tenente não resistiu aos esforços e está sendo carregado pelos colegas em uma maca improvisada.
A tensão aumenta quando outro militar, dessa vez um tenente, desmaia. A situação é grave. O oficial apresenta pressão arterial muito baixa: 8 por 4. Ali mesmo, no meio da selva, quem presta os primeiros socorros é um médico recém-saído dos corredores do Hospital Universitário (HU), com o diploma da Universidade Estadual de Londrina (UEL) nas mãos. Ele pede agilidade.
Nas costas de um companheiro, o tenente sai da mata. Na estrada, uma ambulância equipada com recursos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aguarda os militares que precisam de ajuda. A suspeita é de rabdomiólise, doença que ataca as células musculares de quem faz esforço físico em excesso.
Bem-vindo ao Curso de Operações na Selva (COS) do Exército Brasileiro. No primeiro dia de contato da turma B1/08 com a floresta, o saldo já é de duas baixas médicas e uma desistência.
Com exclusividade, a FOLHA acompanhou uma das 11 semanas do curso oferecido pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), que desde 1966 já formou 4,5 mil. Um treinamento que busca simular todas as condições que podem ser enfrentadas pelos combatentes brasileiros em caso de uma guerra pela Amazônia.
Tudo é levado muito a sério. E não é por acaso. O Comando Militar da Amazônia (CMA) admite que o ''guerreiro de selva'' seria a principal arma do Brasil em caso de combate para valer na região.
Cada um dos 56 alunos - todos oficiais (sub-tenentes, tenentes e capitães) - desse COS custa em torno de R$ 50 mil para os cofres públicos. Porém, para chegarem ao final eles vão ter que ralar muito.
A mística da onça pintada
Dentro do Exército, quem carrega na farda a onça pintada que indica o brevê de guerreiro de selva é visto de maneira diferente. Todos sabem que o ''guerra'' foi testado, e resistiu. Por isso, a gana dos militares que se voluntariam para fazer o curso.
''Eu quero essa onça, essa onça eu quero...'', diz o trecho de uma canção que eles entoam o tempo todo, exaltando o brevê e o mascote do Cigs. Eles sonham caçar inimigos na mata da mesma forma que a onça pintada caça suas presas.
O dia dos alunos começa muito cedo, por volta as 4h, quase sempre com uma boa corrida, e termina tarde, perto da meia-noite. Acompanhamos a primeira semana de treinamento, voltada para a resistência e vida na selva.
As atividades foram realizadas em uma das quatro bases, a número três, que o Cigs mantém em uma área de 1.150 km2 de mata preservada que forma um quadrado - chamado de maldito pelos alunos do COS - no Estado do Amazonas, a duas horas de jipe de Manaus.
Dificuldades na selva
A fórmula simplificada do curso é: muita atividade física, pouco tempo de sono, pouca comida, muita provação psicológica e muitas instruções teóricas. A cobrança de resultado não vem apenas da equipe de instrução: a selva exige dedicação.
Em seu interior, a floresta é cheia de dificuldades. Diferente do que parece ser nas imagens aéreas, o terreno não é plano. Subidas e descidas, os socavões, estão em todos os lugares. O chão arenoso coberto de material orgânico (folhas) em decomposição é liso como sabão.
Durante o dia, o calor é insuportável e a umidade castiga. Transpira-se muito. As fardas estão sempre molhadas pelo suor ou encharcadas pela água do igarapé do Branquinho, onde os alunos são obrigados a mergulhar, de farda, mochila e coturno cada vez que o resultado de um exercício não satisfaz os instrutores.
Quem tora (dorme, na linguagem dos militares) durante a parte teórica também ganha o mergulho como castigo. Por sinal, o sono é um inimigo ferrenho. Durante as instruções, é comum a cena de gente batendo na própria cara para não ''torar''.
Os pés molhados o dia todo significam sofrimento. Bolhas se formam e a micose ataca. A mochila que, quando seca, pesa quase 30 quilos é um caso à parte. Os alunos andam curvados devido ao peso. O fuzil Pára-Fal, companheiro inseparável, pesa mais cinco quilos.
O dormitório é em redes, no meio da floresta, com suas feras e seus pernilongos. As necessidades físicas também são feitas no meio da mata. E os alunos ainda têm de suportar os instrutores dizendo o tempo todo, em alto e bom som, que não vão conseguir. O fator surpresa conta: eles nunca sabem qual e quando é a próxima atividade.
Um ambiente de guerra
''Tentamos criar o máximo de tensão de um ambiente de combate. É a doutrina da resistência para fazer frente a uma grande potência. Por isso, tiramos o aluno do seu 'centro de gravidade''', diz o major Alexandre Petrini Leonardo, chefe da seção técnica de ensino, explicando a pressão psicológica.
''Eu só saio daqui com a onça (brevê). A tropa espera isso da gente. No último dia antes de vir para a mata, recebi dos meus soldados uma mensagem no celular. Diziam confiar em mim. Posso estar na pior aqui, mas vou lembrar disso e continuar'', comenta o tenente Souza Filho, 27 anos, que serve em Tefé (PA). O depoimento dele sintetiza a opinião dos outros oficiais que enfrentam o COS. Obrigatoriamente, eles trabalham em alguma região amazônica, mas, na maioria das vezes, são nascidos em outros lugares do Brasil.
Sob o comando desses oficiais estão nativos das florestas, inclusive indígenas, que se deslocam e tiram o sustento da selva com naturalidade. Soldados franzinos, porém ágeis e astutos na mata.


