O ritmo do Curso de Operações na Selva (COS) é alucinante, capaz de deixar boquiaberto quem se impressionou com as cenas do filme Tropa de Elite. Porém, lá não há tapas na cara nem o ''pede pra sair''. Os instrutores não tocam nos alunos.
Do ''Tropa'', fica apenas a inspiração de uma das músicas da trilha sonora do filme, o Rap das Armas, adaptada pelos guerreiros da Amazônia: ''A nossa Amazônia é ruim de invadir...''
Na primeira atividade de deslocamento na mata já houve desistência de um dos mais experientes do grupo, um capitão, o aluno zero três. ''Ele viu que não aguentaria o batidão'', sintetizou o médico. Na segunda atividade, a do resgate de feridos, mais duas baixas médicas.
Em 2006, dois sargentos que participavam de um COS morreram afogados durante uma atividade na piscina do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs). Ainda naquele ano, a rabdomiólise, doença que assombra os alunos, matou um tenente. Ano passado, uma morte por afogamento aconteceu durante uma instrução em um lago no meio da selva.
Porém, nada disso assusta os candidatos a guerreiros. Todos dizem que o curso tem que ser assim mesmo, puxado. ''Tô aqui porque quero. O que acontece no curso não é nada além do que vamos ser exigidos no caso de uma guerra de verdade'', ressalta o capitão Dorneles Oliveira, 32, lotado em Boa Vista (RR).
Na primeira fase, o guerreiro aprende a viver na selva, a vê-la não como inimiga, mas como aliada. É preciso usar a mata para vencer as batalhas. Os alunos aprendem sobre as riquezas da Amazônia, que não são poucas. De acordo com um dos instrutores, o capitão Jonatas, existem 300 mil vegetais comestíveis em ambiente de selva. Um simples cipó pode esconder mais de um litro de água e um coco de babaçu caído no chão guarda um banquete de bigatos de besouro, fonte de proteína, em seu interior. O guerreiro também deve saber caçar e comer todos os tipos de animais, inclusive cobra. Um caldo de jibóia pode matar a fome de um pelotão.
Nas fases seguintes, tiros, granadas, bombas, saltos de helicópteros, natação em rios, camuflagem. Uma verdadeira simulação de guerra para formar a arma brasileira para defender a Amazônia.
Um ambiente de guerra
''Tentamos criar o máximo de tensão de um ambiente de combate. É a doutrina da resistência para fazer frente a uma grande potência. Por isso, tiramos o aluno do seu 'centro de gravidade''', diz o major Alexandre Petrini Leonardo, chefe da seção técnica de ensino, explicando a pressão psicológica.
''Eu só saio daqui com a onça (brevê). A tropa espera isso da gente. No último dia antes de vir para a mata, recebi dos meus soldados uma mensagem no celular. Diziam confiar em mim. Posso estar na pior aqui, mas vou lembrar disso e continuar'', comenta o tenente Souza Filho, 27 anos, que serve em Tefé (PA). O depoimento dele sintetiza a opinião dos outros oficiais que enfrentam o COS. Obrigatoriamente, eles trabalham em alguma região amazônica, mas, na maioria das vezes, são nascidos em outros lugares do Brasil.
Sob o comando desses oficiais estão nativos das florestas, inclusive indígenas, que se deslocam e tiram o sustento da selva com naturalidade. Soldados franzinos, porém ágeis e astutos na mata.

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