Quando ainda era adolescente em Mira d´Aire, em Portugal, o jovem João Trindade Pereira começou a aprender o ofício de fabricar roupas em uma empresa chamada Fábrica de Malhas Mirex, na pequena freguesia portuguesa. Aos 16 anos, deixou o trabalho para trás e veio com os pais e dois irmãos tentar a vida no Brasil, onde se estabeleceram em São Pedro do Ivaí e logo depois na jovem Londrina que, como ele, nem tinha chegado aos 20 anos.
Em um tempo em que "todo mundo só pensava em café", ele trabalhou em alguns estabelecimentos comerciais até conseguir uma oportunidade na antiga Lojas Brasileiras, onde entrou como auxiliar de serviços gerais e saiu oito anos depois como subgerente. Em meio às roupas que vendia no magazine, surgiu a ideia de se tornar um empreendedor. Com imagens da antiga fábrica onde trabalhou em Portugal na memória, começou a fabricar malhas na garagem da casa do sogro. Surgia ali a marca Mirex, que por décadas foi sinônimo de crianças bem vestidas em todo o Norte do Paraná.
"Minha universidade foi o tempo que trabalhei na Lojas Brasileiras. Lá aprendi tudo sobre comércio e negócios", conta Trindade, que depois de um tempo fabricando malhas resolveu abrir uma loja com a ajuda da então noiva, Helena Guerra Pereira, na esquina da Rua Minas Gerais com a Sergipe. "Antes de abrirmos, a loja foi assaltada e toda a mercadoria roubada. Não foi fácil, mas recuperamos o prejuízo, inauguramos e não paramos de crescer", recorda.
O grupo de lojas Mirex chegou a ocupar 12 endereços em Londrina e cidades da região. Com um sócio, Trindade empreendeu também em uma fábrica de malhas, chamada Londrimalhas, que no auge empregou 2 mil pessoas e respondeu por 18 lojas próprias em todo o Brasil. A conjuntura econômica atrapalhou, mas Trindade não se exime da própria responsabilidade ao explicar o fechamento da fábrica. A Mirex, onde afirma ter ganho muito dinheiro, também teve seu fim em 2000, alguns anos depois que os filhos do empresário passaram a administrar a empresa.
"Eu era um imigrante caipirão que tinha algumas ideias. Me empolguei e cheguei longe. Londrina me deu oportunidades", garante. Tal como a cidade que viveu dias de luxo e riqueza e teve de se reinventar após a crise das lavouras de café, nosso incansável personagem renasceu das cinzas. "Eu ainda tinha idade, saúde e disposição para tocar o barco. Perdi tudo, mas sabia fabricar roupas de crianças", lembra ele, que com os filhos começou a fábrica Gbaby no porão do imponente prédio que construiu para morar com toda a família.
Hoje, a empresa completa 12 anos e reúne oito marcas comercializadas para todo o Brasil. A fábrica que emprega 500 funcionários ocupa um grande imóvel comercial na zona norte de Londrina, onde são realizadas todas as etapas da produção.
João Trindade, que completa 80 anos amanhã, anda rápido por todos os ambientes da empresa, com saúde e disposição invejáveis. "Não carrego remédio para todo lado. Me sinto como se tivesse 50 anos", diz ele, que considera-se também um vencedor ao olhar para trás. "O Brasil é favorável aos empreendedores e Londrina foi muito generosa comigo."
Ele vislumbra a cidade em um ritmo acelerado de crescimento nos próximos 20 anos, com grandes oportunidades para quem não tiver medo de empreender. "É preciso coragem e disposição. Daqui 20 anos, terá sucesso quem não se influenciar por discursos pessimistas", aconselha.

É preciso coragem e disposição. Daqui 20 anos, terá sucesso quem não se influenciar por discursos pessimistas"
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