A feirinha que virou feirão
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
Na barraca de geléias, molhos e vinagres artesanais, o comerciante Nereu Fanini saca do bolso uma lista com os nomes de vários ingredientes, em inglês. Tudo para atender bem o cliente, no caso o alemão Mathias Kollmann, 28 anos, que veio da cidade de Saarbruchen, Alemanha. ''Sempre vem gente de fora, muitos canadenses, americanos. Então aproveito para exercitar o inglês e mostrar o diferencial da nossa banca'', conta o comerciante. Na bagagem, Kollmann vai levar para casa geléias de ameixa e uva. ''Comprei também algumas peças em madeira e bijouterias em semente, para levar para minha mãe'', enumera o alemão. Segundo a amiga Suelly Lorenz, que o trouxe, o que mais chamou a atenção foi o tamanho da feira e a variedade de produtos. ''Eles não estão acostumados com isso, então acaba impressionando'', afirma.
De acordo com a esposa de Nereu, Noemi Fanini, os turistas gostam principalmente de geléias de manga, banana e goiaba, além dos produtos que têm pimenta na receita. ''É muito gratificante saber que o que você produz está sendo levado para o exterior. E fica ainda mais quando as pessoas voltam e levam ainda mais'', revela.
A feira do Largo da Ordem nasceu em 1975, com cerca de 50 barracas. Hoje, cerca de 1.200 artesãos disputam a atenção dos 15 mil visitantes, que passam pela feira todos os domingos. Outros 700 inscritos aguardam em uma fila de espera. ''Eles preenchem os requisitos para a feira, mas enquanto nao há vagas, podem expor os produtos em outras 23 feiras de bairro disponíveis na cidade'', revela o secretário municipal de Turismo, Luiz de Carvalho.
Mas, se a quantidade de barracas agrada os consumidores, o mesmo não acontece com os comerciantes. No Largo da Ordem há 20 anos, Iolanda Portugal vende flores e trabalhos com madeira e espelhos. E queixa-se dos produtos semelhantes espalhados pela feira. ''Hoje é muito difícil concorrer com produtos importados, que você encontra em várias barracas. Há produtos industrializados também. Então o custo fica muito alto para produzir e quando chega na feira, o cliente não olha a qualidade, olha o preço. Aí fica complicado'', reclama.
Apesar do protesto, a Secretaria de Turismo nega que haja produtos não artesanais. ''O produto não pode ser industrializado e, para evitar que as regras sejam desrespeitadas, há equipes de fiscalização realizando vistorias de rotina nas barracas, para verificar se o produto que está sendo vendido é mesmo o que consta no alvará, que é concedido pela prefeitura'', afirma Carvalho.
Entretanto, o argumento não resiste a uma volta pela feira. Em um dos pontos há bolsas e sapatos, que de nada lembram produtos artesanais. A proprietária prefere não se identificar, diz que sabe que o produto pode ser ilegal, mas prefere correr o risco. ''Vendo artesanato também, mas hoje em dia é muito difícil conseguir sustentar só com ele. E quem vem na feira muitas vezes procura esses produtos e não coisas feitas à mão, então é preciso ter o produto que o cliente quer'', defende-se.
O vendedor de livros, que ficam espalhados pelo chão em um dos locais mais movimentados, prefere não comentar o assunto. Apenas diz que ''possui autorização''.
Polêmicas de lado, a feira já faz parte da vida de muita gente. Morador de um prédio próximo ao Largo da Ordem, o consultor tributário Dirceu Tixiliski, 51 anos, conta que no começo reclamava que as barracas bloquevam a saída de casa, mas que se acostumou. ''Trago amigos de fora que estão visitando, compro produtos também, mas ela é um grande ponto de encontro. E acho que retrata bem o aspecto cultural da cidade, uma arte bastante variada. E o melhor é que é do lado de casa, nem preciso andar muito para estar aqui'', resume.
Passeando por Curitiba, a vendedora Edina Tisuki, 32, já tinha ouvido falar da feira, mas não imaginava que era tão grande. ''Quando falam em feira, a gente pensa que é uma coisa mais reduzida, meio limitada. Mas essa aqui é bem grande, tem uma variedade enorme de produtos e de comida, tudo com uma qualidade muito boa'', ressalta. Com várias sacolas na mão, Edina assume: não deu para resistir. ''Jurei que não ia gastar muito, mas quem disse que a gente aguenta?'', brinca.


