A fé fora das igrejas
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sábado, 14 de agosto de 2004
Camilla Rigi<br>Reportagem Local 
Com o crescimento do comércio de produtos religiosos e a massificação da fé pelos inúmeros veículos de comunicação, a manifestação da palavra de Deus saiu do âmbito das igrejas e chegou às ruas de forma contundente. Hoje, não é preciso nem sair de casa para ver uma missa, ou mesmo receber junto ao pedido da farmácia um mensagem como ''Deus é Fiel''. A mudança da fé intimista para uma fé pública é notada em centros comerciais, que não se importam em ligar a imagem da empresa a de Deus.
Segundo o padre Walter Diniz dos Santos, da assessoria de comunicação da Arquidiocese de Londrina, antes havia um ''pré-conceito'' que a fé não estava associada ao sucesso profissional. Mas, segundo ele, isso mudou com a massificação da religião que permitiu um contato maior com a população e uma consequente aceitação das diferentes crenças. ''Já vi uma loja aqui na cidade que tem um cartaz que diz Deus é meu sócio. E, na verdade, o Senhor realmente quer que prosperemos'', disse padre Walter.
O empresário Flávio Eduardo Gagliardi, dono de um fast-food em um shopping, contou que desde maio de 2001 imprimiu em seus produtos o slogan ''Deus é Fiel''. Por qual motivo? Ele explicou que a empresa não estava bem e, como já era evangélico na época e acreditava que Deus era detentor de todas as coisas, decidiu então ''consagrar'' a empresa a Ele.
De lá para cá, Flávio conta que tudo mudou. ''A gente ainda erra, passa por momentos difíceis, um dia vende mais, outros menos, mas no final do mês nunca falta para pagar as contas'', confessou o empresário. Ele admitiu que, no início, pensou na possibilidade de sofrer rejeição por parte dos clientes, mas relembrou que na ''Bíblia existe uma passagem que diz que os cristãos seriam perseguidos'' e resolveu correr o risco. ''Foi uma forma de mostrar no dia a dia que Deus foi fiel comigo'', afirmou Flávio. Hoje, ele e a esposa possuem mais duas lojas de roupas infantis que também transmitem a mensagem.
O grande crescimento da comunidade evangélica no país também contribuiu para para a transformação da fé intimista em pública. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2002 apontavam a existência de 30,2 milhões de evangélicos, o correspondente a 17,2% da população. ''Há alguns anos se identificar como evangélico era ruim, hoje muita gente já usa isso como status'', declarou o presidente do Conselho de Pastores de Londrina, Édson de Oliveira. O pastor também acredita que, como o Brasil é um dos maiores países católicos do mundo e uma das maiores potências evangélicas, essa aceitação foi natural.
A iniciativa dos empresários é vista com bons olhos pelas duas vertentes religiosas. ''Muita gente diz que a fé move montanhas, mas se você não conversar com a montanha, fica mais difícil'', explicou padre Walter. É o que acredita o empresário Gagliardi. Ele contou que uma vez recebeu um bilhete anônimo que dizia que naquele dia a pessoa não sabia que caminho seguir, mas que uma frase na bandeja dela deu um novo sentido para a vida da pessoa. ''Isso foi marcante. Se consegui trazer um alento a uma pessoa já valeu a pena'', garantiu o empresário.
A reportagem da Folha ouviu algumas pessoas no shopping e a maior parte não se opôs à atitude do empresário. ''A mensagem não me incomoda, pelo contrário, serve para refletir'', disse a estudante Adriana Rodrigues, de 27 anos. O representante comercial, Elmo Ornelas Vieira, de 43 anos, também apoiou a iniciativa. ''Acredito que a gente tem que fazer tudo que acredita'', afirmou Vieira.


