Jair Ferreira dos Santos
Especial para a Folha
Comemorar é uma especialidade brasileira tanto quanto a feijoada e o futebol. A vocação é antiga. O casamento de D. Maria I, em 1760, foi festejado durante 22 dias em Salvador, e no Primeiro Império observaram-se nada menos que 53 feriados. A celebração dos 500 anos do Descobrimento, liderada pelo ministro Rafael Greca, o tropeiro pimpão, já está nas telas e, claro, fará jus à tradição, mas a homenagem, ultralegítima, na certa virá inflada pelo nosso também secular oba-oba.
Usamos a expressão com um desprezo jocoso pelos objetos a que se aplica, crendo assim conjurar suas implicações. Redudância da interjeição oba, que denota surpresa, admiração, entusiasmo, prazer, oba-oba tem filologia obscura. Associada, parece, ao carnaval, deu título a música de Assis Valente em 1937; está no léxico do teatro de revista, onde oba era o grito apoteótico; há duas décadas foi nome de casa noturna no Rio de Janeiro por seu astral ‘‘pra cima’’; e nos anos 60 e 70 seria empregada pejorativamente pela esquerda para ironizar o ufanismo dos militares, passando a significar grandiosidade ou nacionalismo balofos, com muito barulho por nada.
Como os exemplos notáveis da espécie são muitos, fiquemos apenas com o samba-exaltação ‘‘Aquarela do Brasil’’, de Ary Barroso, e o delirante ‘‘milagre brasileiro’’, emblemas que em matéria de patriotada só perdem para o impávido Galvão Bueno e sua afilhada, a Seleção. Não vamos porém ser injustos a ponto de omitir os projetos mirabolantes (Transamazônica, Paulipetro) nem os números bombásticos (Cinquenta Anos em Cinco, os índices do Delfim), sem falar no trunfo que é Deus ter nascido por estas bandas.
Existe no oba-oba, portanto, uma desmedida festiva. São hipérboles alegres que bloqueiam o senso crítico ante a desproporção das palavras com a realidade. E elas estão em toda parte, na mídia como na alma popular. Quando desmentidas pelos fatos, a nação sofre um trauma. Lamuria-se, mas autocrítica, nem pensar. Não é difícil rastreá-las nos mitos e ritos do passado. Uma natureza edênica, provedora, nos garantiria abundância e deleites sem fim – cantavam os poetas. Suntuárias, as procissões barrocas replicavam na sociedade o luxo da paisagem para fundir Céu e Terra, poder com opulência. Essa disposição para magnificar e festejar repercute desde sempre nosso apelo ao mágico, como nosso apego ao corpo, ao gozo, ao efêmero. São marcas explícitas no oba, visíveis na liberdade e sensorialidade do carnaval, mas constituem igualmente uma contrapartida à bruteza do trabalho escravo e, hoje, à sua penúria ética, social, na versão assalariada.
A fuzarca tropical à Gilberto Freire, combinada com imaturidade política, responderia pela constatação de que o oba-oba tem um pé no arcaico. Sua atualidade, no entanto, talvez se deixe melhor apreender por outro dado: o Brasil transitou, ambiguamente, da cultura oral para a eletrônica sem ter feito escala na escrita, no livro. Com isso a cultura letrada, que vincula o progresso à razão, o indivíduo à cidadania, para fundar o futuro como modernidade, não pegou por aqui, salvo nas elites e setores da classe média. Detalhe: não basta saber ler e escrever para estar nela; é preciso desejar o conhecimento.
Em vez disso a grande massa na periferia do texto, se consome imagens, mantém no cotidiano os traços de uma oralidade relacional, contextual, onde vale o costume, não a lei; pesa o afeto, não a lógica ou o contrato. Ancorada no presente, ela faz do encontro, do improviso, da alegria, argumentos de sobrevivência. Pregnância da oralidade: não lemos painéis, perguntamos no balcão; o radinho de pilha nos estádios; o humor e a música nos representando melhor que a literatura; os assinantes de TV a cabo que, em maioria, preferem os filmes dublados aos legendados; a qualidade da nossa televisão e publicidade, criações altamente intuitivas. Por fim, o admirável ‘‘Central do Brasil’’ a nos mostrar o quanto a vida do universo oral pode ser mais digna, generosa, que nos domínios da escrita.
Este é o leito onde corre o oba-oba. Seus agentes podem ser letrados, mas ele próprio é uma ‘‘fala’’, um ‘‘contato’’ em estilo mitico-festeiro com o povo através do rádio, da TV, da música, do bordão, para ativar seu imaginário. Nenhum texto escrito, e não só pelo menor alcance, teria a mesma eficácia. Aliás, quem não ouviu o esturro de Tupã, meses atrás, quando ACM anunciou que ia acabar com a pobreza?
Letrados oficiais o engendram a manipulam, a esquerda, superletrada, o repudia. E a massa, digamos, sub-letrada? A massa acolhe ou suporta o oba-oba por não ter nada a perder. E repetidamente faz ponta numa peça em quatro atos: empolgação, desperdício, impunidade, esquecimento. Com um enredo tão medíocre, como explicar sua vitalidade? Calcar tudo na incultura e na credulidade certamente não esgota o assunto.
Na verdade o oba-oba reencena um pacto de indiferença em torno da coisa pública. Convocado, o ‘‘Brasil Grande’’ amacia, pela participação popular meramente decorativa, o divórcio entre a massa e a elite que conduz os negócios e os negócios do Estado. Nacionalidade e coisa pública se fundem numa união efêmera, pomposa, para referendar uma separação: uns tomam decisões, outros comemoram. Mas ninguém engana ninguém. Como em todo pacto, algo é preservado. Terminada a festa, a massa conserva sua distância do mundo institucional, letrado, tido como complexo e inacessível, do qual pouco espera. Certa astúcia a leva a não se responsabilizar pelo próprio destino social, escudando-se num cotidiano em que cada indivíduo é seu corpo, suas crenças, lutas, prazeres, equanto a política fica um espetáculo estéril ao longe. Por sua vez a elite, porque vê na coisa pública uma extensão dos interesses privados, ratifica seu descompromisso com o país, beneficiando-se na hipertolerância que é não ser cobrada para valer.
O oba-oba é portanto mistificação sem mistificados, uma breve exaltação no irreal entre compadres. A indiferença daí resultante tem manifestações várias: imobilismo em todas as classes face à calamitosa distribuição de renda; o individualismo feroz, para o qual ‘‘o público’’ é sempre ruim; os 100 bilhões de dólares brasileiríssimos depositados no exterior. A lista é longa.
Não surpreende assim que a modernização por estes lados pareça, além de emperrada, insolúvel. Maus arcaísmos esvaziam o trabalho de esperança, colocam a escrita sob suspeita, privatizam o poder. Bons arcaísmos nos acatam mais ao prazer que à produção, dão precedência à invenção no cotidiano sobre as utopias no imponderável. Brota neste solo uma singularidade: temos uma História sem povo e um povo que, abrigado no presente, defendendo-se pela malícia, não está nem aí para a História – ação e memória letradas. Basicamente enfim o oba-oba é um sintoma, um personagem menor no drama da mudança. Jogo de aparências, é manejado pelos senhores para que as transformações – e só as lucrativas – não cheguem a rupturas. As esquerdas o rejeitam em nome da Verdade, da Razão, filhas da escrita, guias para o salto revolucionário, e por isso raramente são ouvidas pela massa oralizada. Restam os que o levam a sério, os ufanóides que sonham pôr a pátria nos trilhos pela paixão: a estes está reservado o triste fim de Policarpo Quaresma.
Como se vê, o oba-oba é sem saídas, pois tem a estrutura do vício, da perversão: é ruim mas é gostoso. Um manjar para os povos cínicos e sensuais.
- JAIR FERREIRA DOS SANTOS é ficionista, poeta e ensaísta, autor do livro de contos ‘‘A Inexistente Arte da Decepção’’ (Ed. Agir).

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