Sabe aqueles dias em que você acorda com o pé esquerdo? Aposto que já imaginou um dia cinzento, quando nada dá certo e só aparecem problemas à sua frente. Para cerca de 10% da população mundial, no entanto, levantar com o pé esquerdo não é sinal de azar. Estamos falando dos canhotos, minoria que enfrenta dificuldades por viver em um ''mundo direito'', onde tudo é feito pensando nos destros.
Tesoura, abridor de latas, carteira escolar, câmbio do carro e talheres são alguns exemplos de objetos ''inimigos'' dos canhotos. A advogada Christine Bressan é uma das pessoas que vão na contramão da maioria, sofrendo para se adaptar ao lado direito da vida. ''Começou desde pequena, quando ia cumprimentar as pessoas e minha mãe batia na mãozinha esquerda, dizendo que a outra era a correta'', lembra. Apesar disso, a mãe de Christine nunca obrigou a filha a escrever com a mão direita.
Para ninguém colar - Na escola, a sensação de ser minoria ficou ainda mais clara para a advogada. Em uma sala para 40 alunos, ela precisava disputar a única carteira disponível para canhotos. Pior ainda na hora das provas, quando Christine ficava isolada do resto da turma. ''Como as carteiras para canhotos eram ao contrário, quem estivesse atrás de mim conseguia olhar toda minha prova. Aí o professor me colocava na cadeira dele, de frente para a sala inteira, para ninguém colar''.
O tempo passou, Christine cresceu, mas as adversidades de seu mundo esquerdo continuaram. Quando foi tirar carteira de motorista, ela teve dificuldade para aprender a dirigir, já que o câmbio fica do lado direito. ''Torna-se mais difícil para quem é acostumado a fazer tudo do lado esquerdo, mas me adaptei e consegui aprender. Só que, na primeira oportunidade que tive, comprei um carro com câmbio automático. Ficou muito mais fácil''.
Contorcionismo necessário - Adaptação é palavra-chave no vocabulário dos canhotos, mas, muitas vezes, adequar-se ao mundo dos destros pode trazer sérios problemas, como aconteceu com a dentista Renata Starling Gonçalves. ''Na escola em que eu estudava não tinha carteira para canhotos, e eu era obrigada a me contorcer na carteira para conseguir escrever. Todo este esforço me rendeu um problema de escoliose'', lamenta.
Na faculdade de Odontologia, Renata também penou para se acostumar com os instrumentos da profissão, todos preparados para os destros. ''Eles nunca pensam na gente. No começo, tive muita dificuldade para afiar os instrumentos. Tinha que ficar no pé da professora, pedindo para ela me ensinar várias vezes, até que consegui me adaptar''.
Preconceito até no tricô - Ainda criança, Renata não teve a mesma sorte quando se matriculou nas aulas de tricô e crochê. ''Fazia tudo ao contrário e a professora não teve paciência de me ensinar, pediu para que eu procurasse um professor canhoto. Aí desisti de aprender'', recorda a dentista.
O ''preconceito'' contra os canhotos não é novidade na família de Renata. O pai dela também está entre os 10% da população mundial que escrevem com a esquerda, e sofreu na infância por conta disso. ''A professora chamou minha vó na escola e pediu para colocar meu pai em um colégio para crianças especiais, porque ele tinha problema''.

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