À espera da água
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terça-feira, 09 de outubro de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
O número de abastecimento de água em Curitiba é expressivo, se comparado à realidade da maioria dos municípios brasileiros: 99,98% da população é atendida, segundo a Sanepar. O 0,02% restante de uma população de quase 1,8 milhões de habitantes sofre as dificuldades de não dispor da infra-estrutura básica para viver.
O cotidiano de quem não tem água na torneira para lavar a louça do almoço, as roupas, para tomar banho, ou simplesmente para cozinhar alimentos e beber, é um dos obstáculos para uma vida digna e gozar de boa saúde.
Essa realidade, vivida pelos curitibanos no finalzinho do século XIX, ainda é enfrentada por uma pequena parcela da população. Só que, hoje, pesa muto o estigma de quem vive nessas condições. Um grupo de 38 famílias sobrevive sem infra-estrutura básica, há oito meses, numa invasão no bairro de Santa Quitéria. ''A luz vem de um gato, mas não aguenta geladeira. A água pedimos aos vizinhos mesmo e rede de esgoto não existe. Já coloquei até encanamento e torneira na minha casa, só falta a água. Tentamos fazer uma ligação da casa de uma vizinha, mas a Sanepar descobriu'', revela o líder comunitário Odair da Costa, 39 anos, que é eletricista e pai de três crianças.
''A gente vai acumulando os pratos na pia para lavar só à noite. As roupas tenho que levar tudo para lavar na casa do meu irmão, no Jardim Independência. Uma parte difícil é que as crianças da ocupação vivem doentes, com diarréia. Quase sempre tem uma internada'', conta Odair. ''Não querem regularizar nossa situação, mesmo assim a gente tem a esperança de ter água, luz e esgoto ligado à rede. Viver desse jeito que estamos é quase impossível. Não temos mais a quem recorrer'', desabafa o eletricista, dizendo que já procurou a Sanepar, e que há 20 anos colocou o seu nome na lista da Cohab.
Para alguns moradores da ocupação, chega a ser um sonho ter água encanada. ''No outro lugar que eu morava, no Capão Raso, também não tinha água da rede. Aqui preciso de seis a sete baldes de água para cozinhar, lavar prato e tomar banho. Aliás, banho é só uma vez por dia. Se for lavar roupa é preciso muito mais. O pior que tem é carregar os baldes, cansa a gente, com o resto já acostumei'', confessa a auxiliar de enfermagem Fátima Guelba, 47 anos. ''Quando vou na casa da minha filha aproveito para tomar banho de chuveiro, porque aqui preciso esquentar e me banhar de caneca'', acrescenta a senhora.
A desempregada Ana Célia Oliveira, 37 anos, tem a ajuda do marido, Roberto Francisco Bernardo, 33 anos, para carregar os baldes até sua casinha, de um só cômodo. ''Lavo roupa na casa dos parentes, às vezes, uma vez no mês. Mas a gente procura deixar tudo sempre limpinho. Quando trabalho de diarista, tomo banho no serviço'', observa ela, que esteve, há pouco, internada por causa de uma infecção intestinal. ''Existe muito preconceito com quem mora em ocupação, pensam que é tudo bandido. Eu vivia numa casinha alugada, no Barigui, até que veio uma enchente e perdi tudo, em março desse ano. No começo estranhei viver aqui, mas agora já está melhor'', comemora Ana Célia.
De acordo com a assessoria de imprensa da Sanepar, 65 famílias vivem em situação fundiária irregular, em Santa Quitéria, onde existe um pedido de reintegração de posse na Justiça da empresa Plano Leve S.A. Isso impede a Sanepar de levar água a cada uma dessas famílias. A solução para que essas pessoas não precisem pedir água aos vizinhos é a Sanepar instalar uma torneira comunitária, contanto que se organize uma associação de moradores para assinar um termo de compromisso e assumir os custos do fornecimento de água.


