A era pré-controle remoto
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quinta-feira, 08 de janeiro de 2009
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
''TV Programas está sendo distribuído inicialmente sob consulta à lista telefônica. Sendo assim, não sabemos ainda se você tem televisor ou pretende tê-lo.'' O primeiro número da revista TV Programas, de maio de 1961, continuava o texto explicativo de capa dizendo que os interessados em receber gratuitamente as edições seguintes deveriam mandar uma carta para a Caixa Postal 167. Inicialmente enviada para 600 pessoas, a folha de papel dobrada como uma sanfona e pouco maior do que um sulfite dividia o periódico em oito partes. A primeira era capa e as outras sete, os dias da semana, em que a programação das televisões Paraná (Canal 6) e Paranaense (Canal 12), a primeira do Estado, criada menos de sete meses antes, em 29 de outubro de 1960, dividia espaço com anúncios.
''Não havia controle remoto e não dava para mexer muito no seletor de canais, que quebrava fácil. Além disso, como os jornais serviam a interesses diferentes, nenhum deles publicava a programação dos dois canais'', comenta o idealizador Luiz Renato Ribas. Na segunda edição, de 29 de maio de 1961, a revista anunciava que havia recebido 471 cartas confirmando assinaturas. Os demais exemplares ficavam nas lojas de patrocinadores ''à disposição dos telespectadores e televizinhos'', costume da época de assistir à programação na residência de vizinhos, uma vez que não eram muitos os que tinham o aparelho em casa.
Em setembro de 1962, a revista atingia a marca de 10 mil assinantes. Para coibir a prática de mais de uma assinatura gratuita por residência, 19 meses depois da criação, em novembro de 1962, passaram a cobrar o valor simbólico anual de 500 cruzeiros. Para a surpresa dos fundadores, 8.700 assinantes foram até à Papelaria Requião do Centro, da Alameda Dr. Muricy, para pagar a renovação. Em 1968, a revista, já em formato de bolso, com reportagens e mais de 40 páginas, alcançava o seu ápice: 18 mil assinantes e cinco mil exemplares vendidos semanalmente nas bancas.
''É um caso raro que conseguiu bloquear a circulação de revistas nacionais por aqui. A Intervalo, da Editora Abril, não entrava em Curitiba por causa da TV Programas'', opina Luiz Geraldo Mazza, 77, colunista da FOLHA e um dos pioneiros da televisão paranaense - escreveu o programa de estréia da TV Paraná, que foi ao ar no dia 19 de dezembro de 1960. ''Como não era em rede, havia muita produção local. Nos primeiros anos da década, Ary Fontoura, Nicette Bruno e Paulo Goulart gravavam programas em Curitiba.'' Com a chegada do vídeo-tape, em fins da década de 1960, a programação em rede trouxe artistas nacionais, mudando o perfil da revista, que deixava de dar atenção aos talentos da cidade. ''E aí ficou impossível de competir com os veículos nacionais, que tinham melhor competência editorial para falar desses assuntos. A nossa força estava na capacidade de tratar com intimidade dos artistas locais'', define Ribas.
Em 1970, ele deixou o negócio nas mãos do sócio Hoffmann, que tocou a revista
até o seu fim, em dezembro de 1977, época em que os anunciantes não passavam de dois mil. ''Não teve greve, falta de papel ou energia elétrica que nos parou. Me orgulho que tivemos 868 números ininterruptos'', declara o último, aos 80 anos. Hoje, os dois vivem na Rua Olavo Bilac, em Curitiba, em residências separadas por 230 metros. Ribas toca o projeto Cinevídeo1, que trabalha o cinema como um instrumento para educação além de tratar da memória paranaense. Quanto a Hoffmann, deixo o leitor com as suas palavras. ''Depois de trabalhar por 37 anos no Ministério da Fazenda, agora estou aposentando e trabalhando no ministério da minha própria chácara.''
Artimanhas
Luiz Renato Ribas, jornalista e publicitário, é marqueteiro experiente. Confira duas estratégias (ele chama de artimanhas) que ajudaram a impulsionar as vendas da TV Programas:
- 800 mil cruzeiros para você
''Para concorrer à uma ou duas fatias dos 800 milhões de cruzeiros antigos, basta ser nosso leitor.'' O texto pedia ao leitor guardar bem o número do bilhete 07491 da Loteria Federal. Preenchendo um cupom e ganhando o sorteio da revista, levaria para casa o bilhete. ''E se o leitor tivesse sorte, poderia ser premiado também pela Loteria Federal'', lembra Ribas.
- V. concorre a 5 Corcel dia 25 de julho
O anúncio publicado em jornais, em julho de 1970, sugeria que ao renovar ou fazer uma nova assinatura o leitor concorria a cinco carros Corcel. Em letras pequenas, o nome ''Gazeta de Notícias'' indicava a origem. ''Era um concurso nacional organizado pelo jornal Gazeta de Notícias. Fizemos uma parceria e o combinado ficou que pagaríamos o prêmio caso saísse para um dos cupons distribuídos a nossos leitores. Como era nacional, as chances de sair para o Paraná eram muito pequenas, o que, efetivamente, não aconteceu.''
Colaboradores
A revista teve entre seus colaboradores Aramis Millarch, Aroldo Murá, Dino Almeida, Enéas Faria e Jamil Snege. Célio Heitor Guimarães foi chefe de redação e mais tarde editor-chefe e Hermes Astor Soethe, diagramador por vários anos.


