"Erin Brocovich é uma das várias exceções que confirmam a imensa maioria de regras hollywoodianas. O rosto estelar - e o bom desempenho, diga-se por justiça - de Julia Roberts ajudou muito na carreira doméstica e internacional do filme. Não fosse isso e aquela história sobre contaminação "corporativa" do meio ambiente, baseada em fato real, muito provavelmente iria direto para as locadoras. É isso: o cinema mais poderoso do mundo, o mais influente, o mais determinante e capaz de gerar transformações não cumpre a sua parte. Não é um militante ativo como deveria. Faz quase nada por uma causa que é hoje uma questão de sobrevivência do planeta. (Exemplo à mão do desperdício equivocado é este "O Dia Depois de Amanhã", que literalmente congela as possíveis, longínquas boas intenções de se discutir, com menos circo e mais veemência, os despropósitos oficiais diante do crescente descontrole térmico da Terra.) E faz quase nada por omissão mesmo, porque não é conveniente comprar brigas, se indispor com vips - os very important persons de sempre - da economia e, por extensão natural, do poder político.
O cinema foi sempre eminentemente temático, diversificando seus conteúdos até o limite. No cinema foram tratados todos os temas, já se filmou quase tudo. As novas tecnologias facilitam o acesso a lugares jamais sonhados pelo olho humano. É difícil encontrar aspectos gerais, ou cotidianos, ou científicos, ou filosóficos, que o cinema já não tenha tratado de alguma forma. O cinema, e não somente o documental, é também documento sobre épocas, pensamentos, estilos de vida, costumes. Além disso, desde seu nascimento o cinema tem sido o mais poderoso veículo de transmissão de conhecimento e de culturas, proporcionando às platéias infinitas possibilidades de encontro com paisagens, lugares e costumes. Então, por que não expor idéias e sugestões de investigação para que ele reflita as aflições urgentes do meio ambiente? Por que não oferecer ao grande publico, sob a forma de entretenimento, a sustentação conceitual, filosófica, ideológica e cultural do "environment" com a finalidade de buscar uma melhor qualidade de vida ?

Carlos Eduardo
Lourenço Jorge,
jornalista e crítico de cinema

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