A diversão é mudar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Quando tinha 19 anos, o baiano Gilberto Souza de Oliveira foi a um parque de diversões na cidade em que morava, em São Paulo, e se encantou. Não com o carrossel ou com a roda gigante, mas com a possibilidade de trabalhar em uma atividade que lhe possibilitasse conhecer "mais coisas, mais pessoas e mais lugares". Ao ser convidado para integrar a equipe do parque ele não pensou duas vezes, juntou suas coisas e partiu com o comboio de trailers, sem nem avisar a família. "Eles pensaram até que eu tinha morrido", lembra.
Sua fuga se deu há mais de 31 anos. De lá pra cá Gilberto casou, teve uma filha, hoje com 22 anos, e uma neta de cinco, ambas nascidas no seio da grande família que compõe os bastidores de um parque de diversões. A promessa de vida que agarrou na juventude se cumpriu. Nesses anos de trabalho ele conheceu várias cidades, algumas até fora do Brasil, como Montevidéu, no Uruguai, e Buenos Aires, Argentina, uma infinidade de pessoas diferentes e trabalhou em funções variadas. Hoje, aos 51 anos, pensa em abandonar a vida nômade dos parques. O motivo é a necessidade que sente de fixar-se em algum lugar. "Tudo vai do costume, mas tem uma hora que enjoa", pondera.
A vida em um parque de diversões itinerante, como o Parque Tupã, que chegou a Curitiba pela sexta vez, onde trabalha Gilberto, se assemelha a de um circo. Junto com as carretas que transportam os 22 brinquedos, viajam cerca de 20 veículos, entre trailers e motorhomes, que servem de residência para 60 funcionários e seus familiares, cuja vida acompanha as atividades do parque. Existe também um trailer enfermaria e outro que serve como cantina e alojamento para os trabalhadores que viajam sem a companhia da família.
De acordo com o dono do Tupã, Hugo Aloísio Mayer, 58 anos, a rotatividade é pequena nesse ramo. Existem funcionários com até 28 anos de casa sendo que o parque tem apenas três décadas de existência. "Tem gente que nasceu aqui dentro, se criou, casou e hoje já tem filho de 15 anos", conta. Segundo ele na grande família do parque, "todo mundo é compadre de todo mundo", já que muitas vezes os funcionários batizam os filhos uns dos outros. Já são 15 as crianças que nasceram em meio à vida do parque. Para que não deixem de estudar, seus pais viajam sempre com o histórico escolar à mão, pois quando mudam de cidade é preciso efetuar a matrícula. Segundo Hugo, uma lei federal garante a filhos de trabalhadores de circos e parques vagas em escolas públicas.
Durante o expediente, a família trabalha unida, enquanto Gilberto cuida dos carrinhos de choque, sua filha, Gilmara Oliveira, trabalha na parte administrativa e sua netinha, Camile, fica aos cuidados da avó. As funções podem variar com o tempo, mas geralmente são feitos cursos profissionalizantes para que os trabalhadores se especializem em determinada função. Também não são poucos os funcionários que criam fontes alternativas de renda comercializando produtos ou oferecendo serviços dentro do próprio parque. Não que sua sobrevivência dependa disso, segundo Hugo todos os empregados do parque Tupã são registrados conforme a legislação e contam com plano de saúde.
Nas horas de folga, os funcionários organizam jogos de futebol, de baralho e outras confraternizações. De acordo com o relações púbicas do parque, Maurício Pinheiro, 43 anos, as festas de aniversário das crianças são animadas, e no último Natal, foi feito um grande churrasco. "O lazer é igual ao de qualquer pessoa", diz.


