A discussão política chega à sala de aula
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Vitor Struck <br> Reportagem local 
Com jovens cada vez mais conectados e expostos ao mundo dos adultos foi a figura do professor quem ganhou mais uma tarefa. Na verdade mais um grande desafio, o de filtrar um enorme contingente de informações trazido à sala de aula por eles. Entretanto temas polêmicos e urgentes, como política, encontram um ambiente cuja as regras para o debate vem sendo questionadas ou podem até não ter sido melhor estabelecidas.

Para André Cunha, presidente do Sinpro (Sindicato dos Profissionais das Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná), "o educador é um vetor fundamental para este tipo de discussão e reflexão".
"Não devemos (professores) ficar em cima do muro não, devemos nos posicionar não no ponto de vista de um lado ou de outro mas no sentido de sermos ativos para permitir a discussão política em sala de aula sim", afirma.
Inserido diariamente nesse contexto está Nilson Douglas Castilho, professor de redação e língua portuguesa do Colégio Marista de Londrina. Ele conta que quando iniciou o trabalho com as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio em 2018 os alunos tinham muita dificuldade em ouvirem uns aos outros. "Agora no final do ano esse debate já tinha muito mais diálogo, escuta, eles tinham muito mais argumentos", afirma.
O professor lembra que o debate sobre temas como a judicialização do aborto, fake news e concepções ideológicas foram estimulados com a leitura de artigos publicados em páginas independentes e também em grandes jornais. Sempre de modo a separar o que é um fato do que tem comprometimento ideológico.
"O que eu levei para eles, além de algumas notícias falsas, eram manchetes tendenciosas. Eu peguei uma manchete que falava da morte da vereadora Mariele (Franco, do Psol). Eu trabalhei com eles até a força da gramática, os motivos de existir uma adjetivação, uma questão do viés discursivo, o que tinha implícito na informação. E não querendo dizer para eles se está certo ou errado, mas qual é o crivo para ser falado isso", explica.
No caso do Colégio Universitário a alternativa foi realizar uma eleição fictícia para estimular os alunos a debaterem pautas reais. Segundo o professor de história Rafael Ferreira, um projeto já é realizado há três anos com os alunos do 2º ano do ensino médio. Na primeira etapa os candidatos da turma acabam criando personagens políticos e os escolhidos dão início a uma campanha na escola. Um debate é realizado a uma semana da "eleição", protagonizada pelo voto eletrônico dos alunos que estudam entre o 7º ano e o "terceirão".
"Alguns candidatos defendiam privatizações outros defendiam um governo mais assistencialista, algo bem parecido com o que nós temos hoje, mas sempre aparecendo várias soluções para esses problemas. É que eles são muito jovens ainda, havia mais a vontade de mostrar que estavam interessados em resolver problemas imediatos do que propriamente o domínio", avalia o professor.
Dentre os aspectos interessantes neste ano, Ferreira destaca a união das salas e o respeito entre os jovens. "Eu fiquei com medo este ano, confesso, por causa dessa agitação política, mas aqui transcorreu numa normalidade impressionante. Houve uma transformação interessante, alguns se tornaram até amigos", comemora.

Já o professor Luiz Carlos Ferraz Manin, de história e sociologia, do 9º ao 3º anos do ensino médio do Colégio Interativa, destaca que o debate em torno das fake news foi realizado em sala concomitantemente ao conteúdo. Ele lembra especialmente uma aula de tratou de políticas sociais e do surgimento do anarquismo e do comunismo na qual os alunos do segundo ano do ensino médio se envolveram ainda mais justamente em função das "notícias" que receberam. O mesmo aconteceu no 9º ano por conta de uma fake news sobre a Era Vargas. O professor avalia que a radicalização política é o que faz com as pessoas acreditem mais no que querem do que em aquilo que pode se provado por fatos. "Chamamos isso de pós-verdade", afirma.
"Mas em se tratando de adolescentes que estão em idade de aprendizagem torna-se uma obrigação trazer isso para a sala de aula e discutir como que esses argumentos são construídos, como essas notícias são feitas, qual a intenção disso. A questão do uso do whatsapp, das rede sociais, melhorou a qualidade do debate? Não, pelo contrário, piorou, mas é a escola um lugar privilegiado para se fazer essa problematização", pondera.
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Se 2018 demonstrou com ainda mais clareza o quanto o debate sobre política pode extrapolar o campo das ideias para o da violência, seja verbal ou física, é no contexto da escola que se encontra uma grande oportunidade de se construir um Brasil mais educado para a política como ela deve ser.
André Cunha pondera que existem colégios em Londrina extremamente progressivos no sentido de estimularem a reflexão política e outros em que isso é desestimulado. Quando questionado qual é a postura que predomina afirma que ainda é preciso se debater mais.
"Eu acho que a maioria não estimula. Acho negativo quando a visão é mais pautada em resultado e competição e pouca reflexão quanto ao papel crítico que as pessoas têm no mundo e o papel da política nisso tudo", lamenta.


