A difícil lição
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
As famigeradas palestras sobre qualidade de vida, que muitas vezes beiram a abstração, vêm perdendo terreno para um tema bem mais prático e aplicável no dia-a-dia: o das finanças pessoais.
Cursos de "economia doméstica", "saúde financeira", "orçamento familiar" e afins entraram de vez no rol das atividades promovidas pelos departamentos de Recursos Humanos das empresas. Em Curitiba, até a prefeitura já oferece aulas gratuitas sobre administração dos gastos.
"Na verdade, as duas coisas estão ligadas. Quem está com problemas financeiros tem sua qualidade de vida comprometida e, por consequência, não produz como poderia", explica Ângela Scroccaro, gerente de RH de uma companhia do segmento de informática. No fim de 2008, todos os funcionários foram convidados a assistir a uma palestra sobre o assunto para, na medida do possível, começar o ano novo sem medo dos credores.
Gerente regional de negócios da Caixa Econômica Federal, o palestrante Vilmar Smidarle atribui a tendência à recente estabilização da moeda. "Na época da inflação, era praticamente impossível pensar em planejamento financeiro. Você tinha de gastar logo, antes que as coisas aumentassem de preço", lembra. Para ele, a preocupação hoje é outra. "Meu curso incentiva a utilização consciente do crédito", afirma.
Esse enfoque caiu como uma luva para a advogada Maria Alexandra Franco, que assistiu à palestra de Smidarle na empresa em que trabalha como consultora previdenciária. Morando sozinha há poucos meses, Maria fez dívidas no cartão de crédito para mobiliar e equipar o apartamento. Além disso, passou a ter despesas com as quais não se preocupava quando morava com os pais (água, luz, telefone, etc.).
"Não fui educada para isso!", diz a advogada, que hoje controla tudo o que gasta por meio de planilhas. Seu grande inimigo, ela conta, é mesmo o crédito facilitado. "Em vez de comprar um sapato na promoção, acabo comprando três".
Como qualquer pessoa minimamente informada, Maria Alexandra sabe o caminho das pedras para não se endividar. O conteúdo da palestra, portanto, não foi nenhuma novidade para ela. Mas por que insistimos em não aprender a lição?
Para Smirdale, é tudo uma questão de comportamento. "As pessoas devem decidir qual estilo de vida vão adotar. Não adianta ganhar muito e gastar muito. Há quem ganhe pouco e consiga ter casa, carro e ainda manter os filhos na escola".
Especialista em Economia Doméstica da prefeitura, Marise Faigenlum ministra, desde 2006, um curso gratuito promovido pela Secretara Municipal de Abastecimento. Com a experiência de quem deu mais de 200 aulas sobre o assunto, ela acredita que o problema também está no controle de nossos desejos, que são ilimitados. Superexpostos ao consumo, passamos de uma compra para outra sem refletir sobre o processo.
"Quando conseguimos comprar alguma coisa que queríamos muito, já começamos a pensar na próxima", diz. "Isso é legítimo, mas deve ser planejado. E também não pode tirar o sono de ninguém", completa Marise, que ainda chama a atenção para outra fraqueza: a autoindulgência.
"A gente costuma dizer Eu mereço isso para justificar determinadas compras. Só que, na hora em que chega a conta, a frase muda para Ninguém merece!", brinca.


