A difícil hora de optar
Oneide Diedrich, 33, foi vocalista do Pelebrói Não Sei?, um dos grupos mais populares do underground local nesta década. Mas travava uma espécie de "guerra interior", como se tivesse de optar por uma das duas atividades. Chegou à conclusão de que não havia escolha.
"Quem é compositor entende isso melhor. Você não decide se vai compor uma música. É ela que decide aparecer", explica o psicólogo, que tem formação em Psicanálise e é sócio de uma clínica.
No melhor momento do Pelebrói, quando o grupo ganhou reconhecimento fora da cidade, Oneide se viu "obrigado a fazer sucesso". Como era de se esperar, o processo culminou no fim da banda - e ele percebeu que era hora de investir na clínica.
A inspiração, é claro, não cessou. Surgiu então um novo projeto, Diedrich e os Marlenes, cujos músicos compartilham do mesmo dia-a-dia "adulto". " Um dos caras tem um filho adolescente que já toca em uma banda", conta o artista-analista, que ainda chama a atenção para a longevidade de ídolos como Bob Dylan e os Rolling Stones. "Eles são a prova de que o rock também envelheceu", afirma.
Como Oneide, o advogado Gustavo Rodrigues, 39, acredita que a atração pelos porões do rock é irreversível. "Deve ser um cromossomo defeituoso", ironiza o baixista e vocalista da banda Mão-de-Ferro. Mas ao contrário do psicólogo, ele nunca se angustiou com um sentimento de dualidade.
O conflito, por assim dizer, era de ordem mais prática. Casado, pai de dois filhos e com uma longa carreira no Tribunal de Justiça, o advogado percebeu que a agenda de seu antigo grupo, Os Catalépticos, não estava de acordo com sua realidade. "Viajávamos para o exterior todos os anos. Foram quatro turnês pela Europa e três pelos EUA", lembra.
Em uma das excursões americanas, os músicos visitaram a Disneylândia. Ao ligar para a mulher, durante o passeio, Gustavo soube que um dos meninos ardia em febre. Teve a certeza de que não deveria estar ali. Meses depois, na Espanha, outro alarme: sua casa havia sido inundada por conta de um temporal. A sensação de impotência foi ainda maior.
As responsabilidades profissionais e familiares se somaram ao desgaste natural de qualquer banda e Os Catalépticos encerraram sua trajetória. O advogado pensou em parar de tocar, mas não conseguiu. Montou o Mão-de-Ferro e hoje administra a carreira do grupo "muito de leve".
À beira dos 40 anos, ele admite que às vezes se arrepende de marcar um show. Preferia estar em casa, com a família, e dormir um pouco mais no dia seguinte. "Acho que a idade está pesando", conclui. (O.G.)





